Mas
por que alguém ia querer saber de uma história inventada sobre gente que não
existe? Ela disse isso com um sorriso no canto da boca. Levantou-se da mesa
falando que ele devia fazer um concurso público para ter salário bom e estabilidade. Colocou os
óculos escuros com grandes lentes redondas, acenou um tchau burocrático e saiu
equilibrando-se no salto alto sobre o chão irregular das passagens estreitas do
Mercado da Madalena. Enquanto se afastava, deu para ver ainda melhor a pernas
bem desenhadas expostas pela minissaia jeans, os cabelos cacheados e fartos
caindo sobre os ombros morenos.
Engraçado.
Ela pareceu perder todo interesse quando ele falou, entre um gole de café e
outro, que era escritor e estava tentado viver de literatura. Na noite
anterior, ao se acharem num bar, riu com todos os dentes quando ele lhe falou
alguns versos bobos que sabia de cabeça. Não resistiu ao beijo, arrepiou-se ao
sentir a mão dele explorando suas coxas grossas e depois nem reclamou da falta
de luxo do motel com pernoite de trinta reais.
De manhã, achou até charmosa a proposta de tomarem um café com pão
francês e queijo coalho na praça de alimentação do mercado. O brilho dos olhos
claros só sumiu quando entendeu o triste vício do acompanhante.
Para que falar dessa mania feia
de escrever? Tá certo que o primeiro romance publicado havia feito algum
sucesso e até rendido umas fotos nos caderno de cultura dos jornais. Mas ler, a
gente sabe, é costume sem graça de alguns poucos chatos intelectuais. Ele
estava se convencendo de que era melhor ser escritor nas sombras, como um fantasma
das palavras, criando histórias em segredo, publicando livros sem fazer alarde.
Melhor parecer normal aos olhos dos outros. Quando vinha quase se perdendo no
horizonte dessas elucubrações, viu alguém conhecido sentado numa mesa próxima.
Enquanto
todos em volta riam e falavam alto, o homem estava ao lado de uma garrafa de
cerveja que parecia ser mais amarga naquela manhãzinha de sábado. Ele levava o
copo americano à boca e fazia uma
careta de angústia. Gotas de espuma branca enfeitavam por alguns instantes a
barba escura e farta. Envergava uma camisa estampada, mas há muito esquecida
das cores berrantes, e uma calça preta com joelhos esbranquiçados. No peito, um
medalhão com a estrela de Davi suspenso por uma grossa corrente prateada.
O
medalhão. Não havia dúvida, era ele mesmo. Mas como? O escritor sabia toda a
história daquele sujeito. Aquiles Rodriguez,
o fabuloso atirador de facas do Circo Mandrakion. Na verdade, era Pedro dos
Santos. Fugiu aos dezesseis anos com a trupe circense que se apresentou no
vilarejo perdido no interior onde o menino morava. Aprendeu a armar a lona,
trabalhou na bilheteria, vendeu pipoca. Logo caiu nas graças de Alonso, o
atirador de facas. O mestre o ensinou todos os segredos da pontaria. Meses de
ensaios teimosos até entender como apagar à distância o cigarro na boca da
assistente de Alonso - Conchita Dolores,
sempre impávida e serena diante do grande alvo cheio de círculos.
Numa
noite chuvosa, Alonso morreu no camarim depois de se apresentar a uma plateia
magra e cética. Xingavam e pediam para ver o sangue da assistente que arriscava
a vida para divertir o respeitável público. O atirador encerrou o número antes
da hora e foi para os bastidores amaldiçoando a dor que sentia no peito. Foram
só alguns minutos até o suspiro derradeiro. A assistente, que também era mulher
de Alonso, só esperou o enterro para avisar que deixaria a vida mambembe - ia
se amigar com um policial que conhecera no velório. Coube a Pedro virar Aquiles
e assumir a responsabilidade de principal atração do circo, abaixo apenas do
Palhaço Pililiu, que também era dono da lona, o patrão do empreendimento
artístico. Mas era preciso encontrar uma nova acompanhante, uma moça destemida
para se expor ao perigo das facas. Só estourar balões presos ao alvo não tinha graça nenhuma.
No
burburinho da feira, numa cidade pequena por onde o circo passou, Aquiles
distinguiu Maria Amélia.
Sustentava na cabeça um balaio cheio de mangas.
As pernas muito alvas e longas driblavam os tabuleiros com frutas e
verduras que disputavam o espaço apertado. Os cabelos lisos escondiam metade do
rosto. Cabelos avermelhados que iam até a cintura fina e bem desenha pelo
vestido de chita. Uma menina que feita de fogo, fogo que queimou o coração de
Aquiles na primeira noite dos dois escondidos no mato para os irmãos dela não
verem. Maria Amélia não contou a ninguém que fugiria com o circo. Mesmo porque
painho a expulsaria de casa quando entendesse que não era mais moça.
E como aquelas pernas alvas e longas ficaram ainda
mais belas cobertas por uma meia-arrastão, reveladas pelo lascão do vestido longo
de veludo. Com as luvas negras nas mãos, nem parecia mais com aquela moleca de
feira, vendendo manga para ajudar o sustento da família. Aquiles fazia a
pontaria mais precisa, pois nada deveria machucar o seu tesouro. Melhor que os
aplausos, só o corpo
quente de Maria Amélia na cama improvisada dentro da Kombi do circo. Maria Amélia, não. Agora era
Rúbia Passion, espanhola sedutora e destemida, a quem as lâminas afiadas jamais
deveriam ferir. Com o primeiro cachê, ela comprou um colar prateado com uma
estrela de seis pontas para enfeitar o peito do seu homem.
Um
dia Rúbia quedou grávida. Teve a certeza com o atraso nas regras e os vômitos
constantes. Mesmo com a barriga crescendo, não deixou seu papel de estátua
diante do alvo. O público ficava ainda mais interessado em ver uma mulher buchuda
desfiando as facas certeiras do marido. O menino veio à luz no aperto dos
bancos da Kombi, recebido por uma parteira. Menino corado e forte, lágrimas escorrendo
no rosto duro de Aquiles. Atirador de facas e pai de família. Logo o rebento
iria correr em volta da lona armada, quem sabe aprender a manejar as lâminas,
primeiro herdeiro de uma nova tradição circense.
Mas,
com o menino crescendo, uma nuvem negra surgiu no céu ensolarado que Aquiles
enxergava no futuro. Olha o nariz do pirralha. Nariz grande, tipo bico de
papagaio, em tudo parecido com o nariz do Palhaço Pililiu - venta gigante que
facilitava o seu trabalho de arrancar risos de crianças e velhos. Será? Não, Maria Amélia não faria uma
covardia dessas. E Rúbia Passion, com sua meia-arrastão, com suas luvas negas,
faria? Aquiles desejou voltar a ser Pedro, roceiro que poderia ter casado com a
moça do sítio vizinho – feinha, mas de boa família. A vida livre na estrada, a
descoberta de novas cidades, os gritos de é o maior, é o maior, vindos da
plateia, nada tocava mais a sua alma acinzentada. Será que você foi covarde
assim, Maria Amélia?
Numa
tarde de domingo, antes da apresentação, aceitou o convite de Pililiu para
dividirem uma garrafa de cachaça. A aguardente queimava menos que o fel da
desconfiança. Mas nada dizia nem reclamava, porque não tinha como ter a certeza do que havia acontecido.
O palhaço contava piadas repetidas e ele tentava engolir a bebida. De repente,
o menino passou correndo atrás de uma bola e dando cambalhota. Pililu gracejou:
-
Sei não, Aquiles... Esse
tá com toda pinta de que vai ser palhaço.
O
atirador jogou o pequeno copo que tinha nas mãos contra um dos postes que
segurava a lona. Foi para a Kombi e trancou-se para esperar a hora da
apresentação. Aquiles,
meu lindo, se avexe que está na sua hora, disse Rúbia batendo na porta do
carro, já em seu vestido de veludo preto. Ele saiu sem dizer uma palavra. Pisou
no picadeiro sem o sorriso que costumava trazer aos espetáculos. A mulher, sim,
sorria encostada ao alvo. Cínica? Mentirosa? A primeira faca ficou enfiada
junto à orelha direita de Rúbia. Um suor viscoso pingou da testa dele. Que
rosto tão lindo, meu Deus, sempre pareceu um anjo. A segunda faca cortou ao
meio o cigarro que ela segurava com os lábios. Anjo ou diaba do cabelo de fogo?
O nariz de Pililiu estava no rosto do menino que acenava para mãe dos
bastidores. A mão que segurava a faca tremeu no tempo de um piscar de olhos. A
lâmina ganhou vida e seguiu o caminho que quis. Furou o vestido pouco acima do
seio esquerdo. Maria
Amélia gritou antes de cair no chão, fazendo a serragem ficar pegajosa e
vermelha.
Sim,
o escritor conhecia aquele homem que agora dividia solidão e amargura com uma
garrafa de cerveja na mesa posta entre os boxes do Mercado da Madalena.
Conhecia porque a história de Aquiles, o atirador de facas, tinha sido escrita
no computador dele e depois de ser concebida em noites de quieta insônia.
Aquiles e Rúbia fizeram do seu romance um sucesso, mesmo que entre poucos –
deram a ele o título de ficcionista publicado que agora ostentava. Mas sentiu
um nó no peito ao ver ali o seu personagem materializado. Só o sofrimento
agrada aos leitores? Olhem o que foi feito da vida desse homem? Espírito
esfarrapado pela dor de um assassinato circense, tragédia barata para compor
folhetim de segunda categoria. Foi até a mesa de Aquiles. Sentou-se e colocou a
mão no ombro do atirador de facas.
-
Desculpe pelo mal que eu lhe fiz. Agora entendo como foi errado tirar você dos
meus pensamentos só para mostrar aos outros que sei escrever ficção.
Aquiles
levantou o rosto e mirou bem nos olhos do interlocutor.
- Não se
preocupe, irmão. Quem sabe onde termina o pensar e começa a vida de verdade?
Será que não fui eu que sonhei com um escritor que contava a minha
história? Aproveite a fama, se ela se
agradar de você. E me faça um favor: pague essa cerveja que estou liso.
O homem levantou-se devagar, caminhou
sem pressa até a calçada em frente ao mercado e seguiu sabe Deus para onde. O
escritor nunca mais viu o personagem. Mas concebeu tantos outros em noites
insones e manhãs na frente do computador. Fez muitas pessoas lerem histórias
inventadas sobre gente que não existe.

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