segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Deitado na colcha amarela

Por Roberto Beltrão

Em passos miúdos e rápidos, percorria todos os cantos da casa.  As sandálias japonesas de encontro às cerâmicas brancas. Procurava Diego no quarto, no banheiro. Talvez estivesse dormindo no sofá da sala. Não. Também não estava no terraço. Passou mais uma noite fora, o safado. Devia estar acostumada. Diego não pensava se alguém ia ficar preocupado caso ele desaparecesse.  Mirtes agoniava-se ao não o ver de manhã. Sentou-se à mesa e colocou na xícara um pouco do café que acabara de passar.

Café forte, feito com bastante pó, como Jorge gostava. Quase todo dia ele reclamava que o café estava fraco, parecendo um chá, e dava um muxoxo. Mirtes fazia sempre o café mais forte possível para tentar não ouvir a queixa. Não adiantava. Se não era o café, era o pão dormido, a bolacha murcha, a manteiga rançosa. Reclamava para ter o que falar. Terminava de comer em silêncio, pegava a maleta e saía apressado. O tchau da mulher ficava no ar.

Jorge ficou mais calado depois que Karla se foi.  Filha querida.  Até os quinze anos, sentava no colo do pai; era quando ele sorria. Mirtes olhava a menina abraçada a Jorge, os dois na cadeira de balanço, enquanto ela ficava imóvel entre o jarro com a samambaia e a mesinha de vidro, as decorações do terraço. Quando ele não estava em casa, Karla se trancava no quarto. Na hora do almoço, pegava o prato na cozinha e comia sobre a cama. Mirtes à vezes ouvia a voz da filha, mãe, minha calça jeans, minha escova de cabelo, meu sutiã novo, cadê? Numa manhã de sábado, cadê Karla? Havia um bilhete sobre a cômoda. Pai, desculpa, uma amiga me deu uma passagem para Espanha ou Alemanha, não sei. Vou ser dançarina. De estudar, não gosto. Quem sabe não consigo um marido rico. Rico e bonzinho como o senhor, né? Vou te ligar quando chegar lá. Diz pra mãe que dê na igreja as roupas que deixei e os sapatos também. Ela sempre vai à missa, não custa nada. O senhor ainda vai ter orgulho de mim. Não souberam nem como avisá-la do enterro de Jorge. Morreu numa tarde de domingo, sentado na cadeira de balanço. Foi coração, disse o médico. Foi amargura, doutor.

Então a casa de dois quartos com sala, cozinha apertada, banheiro e um terracinho ficou enorme para o corpo franzino de Mirtes. Queria sentir a casa como uma manta, ficar aconchegada, protegida. Sobrava parede e forro de gesso. Era silêncio demais. Durante o dia, só o barulho da vassoura expulsando a poeira, da torneira aberta, a água ensopando as roupas ou lambendo os pratos. Cheiro, só no vaso, de água sanitária. Às vezes de café. Cheiro de comida, um ou outro dia na semana, porque parecia um serviço inútil preparar uma refeição só para uma pessoa. À noite, a conversa era com a novela. Ligava a televisão bem alto, fechava os olhos e tinha a certeza que os artistas estavam ali, sentados no sofá. Imagina só, gente tão bonita e rica sentada no sofá imitação de couro comprado em dez prestações. Nem combina.

Mirtes vez por outra saía de casa. Ao banco para receber a pensão, à igreja, à feira. Foi na feira que encontrou Diego. Tinha os olhos muito claros. Devagar, ia de um lado para o outro entre os tabuleiros, procurando alguma coisa. Ficou parado por alguns instantes próximo à barraca de carnes e, quando o feirante se distraiu, com um bote apanhou um pedaço de charque e se danou a correr. Não foi longe. Levou uma paulada na cabeça e ficou meio tonto, amuado no pé de muro. O feirante ainda o chutou quando apanhou de volta a carne roubada. Os poucos curiosos se afastaram logo e, quando não havia mais ninguém por perto, Mirtes o ajudou a se levantar e o levou pra casa. Colocou gelo para diminuir o galo que se formou, embora ele esperneasse e tentasse escapar. Depois, acalmou-se. Mirtes serviu-lhe uns pedaços de carne guisada com arroz de ontem. Ele comeu ligeiro, como quem tem raiva da fome. Ela sorriu.

Diego passou a morar com Mirtes. Quer dizer, ela nem sabia se aquele era mesmo o nome dele. Começou a chamá-lo assim e o outro aceitou. Diego é nome de quem tem olhos claros. No começo, escondia-se, arisco, nos cantos de parede. Não queria ser tocado, encolhia-se todo quando ela lhe estendia a mão. Da janela, mirava a rua empinando o nariz, pronto para sair correndo. Não ia. Segurava o impulso arqueando o corpo.  Devagar, acostumou-se aos afagos de Mirtes. Ela voltou a sentir o prazer de preparar o almoço e a janta, mesmo sendo comida sem luxo, inhame com charque, cuscuz com sardinha, macarrão com salsicha. Um tiquinho de leite para arrematar. A feira mirrada levava metade da pensão. Ele batia o prato, fosse o que fosse. Ficava dengoso. Na hora da novela, vinha deitar a cabeça no colo da viúva. Era acariciado durante todo o capítulo. Cochilava, imóvel, e acabava ficando ali até amanhecer.

Uma noite, aproveitou a porta do quarto aberta e se deitou na cama, enquanto ela, no banheiro, vestia a camisola. Mirtes o viu esparramado sobre a colcha amarela de chenille. Aquilo estava certo? Diego viera da rua. Deitado, apertava os olhos esverdeados quando a encarava. Dali pra frente, um travesseiro para Mirtes, um travesseiro para ele. Na vizinhança, ninguém reparava. Só ouviam Mirtes gritar ô Diego, olha o almoço, ô Diego, é hora da janta. Viviam em segredo, um ao lado do outro, quase todas as horas.

Ela sempre dormia um pouco depois de almoçar e, nesse momento, ele se divertia com uma bolinha no quintal. Era azul-escura, quicava entre as pedras e as plantas. Diego a perseguia, batia na bola para ela correr ainda mais; no jogo sem regras, driblava adversários ausentes, era astuto nos lances e vencia. Exausto, suado, vinha para junto dela na cama, esticava-se todo de cansaço, botava a língua pra fora num bocejo e, relaxado, fechava os olhos. Ela acordava com o movimento e esticava a mão para tocar o corpo macio que se espreguiçava. Procurava os pêlos do peito e esfregava os dedos neles, devagar.

Foram dois meses até Diego sentir a rua chamar. Não era uma voz, nem um barulho, era um cheiro de coisa boa, cheiro feminino. Saía, discreto, pela porta da frente. Quando Mirtes estava varrendo o terraço, ele pulava o muro do quintal. No começo passava horas batendo pernas e, à tardinha, voltava. Macarrão com salsicha, cuscuz com sardinha ou inhame com charque. Depois, a novela das oito, e entrar embaixo da colcha amarela. Logo, cada passeio foi ficando mais demorado. A janta sobrava nas travessas. Mirtes voltou a fechar os olhos na hora do capítulo para imaginar a mocinha e o galã sentados no sofá. Depois apagava a luz. Cadê Diego, meu Deus? Isso é hora de estar pelo mundo? Antes de dormir rezava sussurrando. Meu São Francisco, tome conta. Ele é assim, sem juízo, que posso fazer? O santo colocava a mão na cabeça de Diego e ele voltava. E isso se repetiu, se repetiu.

Mas, daquela vez, parecia não ter voltado.  Num instante Mirtes correu a casa de novo depois de deixar a xícara de café pela metade. Trocou a japonesa pela sandália de salto e saiu pela rua. Vocês viram Diego? Davam uma risadinha antes de responder que não.  Não estava em canto nenhum, nem esticado nas calçadas, nem zanzando na feira. Bateu um desespero. Apurava a vista para reparar cada canto do bairro. Num terreno cheio de mato, ele estava jogado perto de um monte de lixo. Lágrimas no rosto, colocou a mão sobre ele. Respirava. Obrigado, meu São Francisco. Um galo enorme na cabeça. Ela o pegou nos braço e o levou de volta. Na porta de casa, achou o carteiro.

- Dona Mirtes, sabe o que tenho aqui? Carta de Karla. Veio da Itália, parece.

- Tenho tempo não, seu Jonas. Sacuda ai no terraço que depois eu vejo.

Em casa, lavou Diego com cuidado e o colocou numa caixa de papelão. Caía a tarde, ainda dava tempo de chegar ao atendimento veterinário da universidade, o único que era de graça. Dentro da caixa, Diego miava de vez em quanto, incomodado pelo balanço do ônibus.

Os calendários na casa de Lolô

                                                                                  Por Roberto Beltrão


- Acuda, Lolô, que uma tragédia aconteceu na tua casa.

Quase sempre ele ouvia, mas não entendia na mesma hora. Escutou o grito e continuou calado, de cabeça baixa, sentado no meio-fio, rabiscando várias vezes o nome no pouco de areia que cobria o asfalto. Lourival. Gostava desse nome. Divertia-se escrevendo cada letra. Era a única maneira que conhecia de juntar as letras, de outra maneira não havia aprendido. Foi assim que a mãe sempre o chamou. Corre aqui, Lourival; para de bulir com o cachorro, Lourival; vem jantar, Lourival. Mesmo quando era um carão, ele sorria. Só ela falava esse nome de gente. O pessoal chamava Lolô. Vem jogar bola, Lolô; corre, Lolô, que lá vem a polícia; Lolô, filho da puta.

Ele sabia o que era um lolô, não juntava as letras, mas sabia. É o caramujo, aquele bicho mole, com uma casca, que anda devagar, escorregando por cima das pedras cheias de lodo.  Os meninos com quem jogava bola riam dele, diziam que era um lolô de cacimba. Se a vida do lolô de rio já era uma bosta, esperando que um dia uma enchente o carregasse, avalie a vida do lolô de cacimba que fica para sempre na mesma água rasa, sem nunca ver o resto do mundo. Mas de que vale sair da cacimba se nela está tudo o que a gente precisa? Quando a mãe o botou na escola, ele viu logo que era coisa besta. Fazer conta pra quê?  Não servia de nada fazer aqueles desenhos miúdos no papel. A professora o ensinou a desenhar o nome, e bastava. Bom era correr com os moleques, andar descalço, tomar banho de chuva, subir em árvore, futebol, comer manga, jambo, goiaba, empinar papagaio, dar peteleco em bola de gude. A mãe se aperreava. Vai estudar, Lourival.  Que estudar o que; me deixa, mãe. Ela chorava tomando de um gole no copo de cerveja. Esse menino me dá muito desgosto. Ele esfregava os olhos cheios de lágrima, não queria fazê-la ficar triste. Gostar da escola, não. Mas o resto, as outras coisas boas, passou a fazer por ela. Não dizia palavrão em casa, tomava banho antes do almoço, penteava o cabelo, bom dia, boa noite, por favor, sim, senhora, não, senhora. Assim, ela voltava a sorrir. Quase sempre. Mordia os lábios e aproximava uma sobrancelha da outra quando escutava Lourival perguntar quem é meu pai. Não respondia. Nunca.

Na parede encardida da sala na casa de dois quartos, ela pendurou um calendário. Quando acabava o ano, o calendário velho não era retirado; só se colocava o novo na frente. Primeiro foram os gatinhos de olhos claros, depois a rosa vermelha, o menino loirinho de roupa xadrez, os filhotes de cachorro, a vovó abraçando os netos de bochechas rosadas, os gatinhos de novo.  Quem dava os calendários era Barradas, dono do mercadinho. Dava também uma feira, feijão, arroz, farinha, charque, fubá, café, um bocado de coisa que o menino que ia pegar todo mês. Apanhava tudo na porta dos fundos do mercadinho. Era esmola? Houve um tempo em que às vezes Barradas ia à casa dos dois à noite. Ele já sabia. Filho, vá dormir agora.  Gostava de Barradas, era puto com os filhos dele. Chamavam-no de otário quando caía da bicicleta, de filho da puta quando chutava a bola para longe sem querer.

Na parede da sala, via o bolo de calendários aumentar, um na frente do outro, quase da grossura da lista telefônica. Nesse tempo, Barradas deixou de vir. Ela sorria só de vez em quando e ficava em frente ao espelho, puxando com a ponta dos dedos as rugas que apareceram no rosto, o esmalte das unhas descascado, um cigarro atrás do outro, os cabelos pintados de loiro com as raízes brancas aparecendo. E Lourival pelo meio da rua, nem precisava muito dizer sim, senhora, não, senhora. Às vezes ela tossia sem parar, ficava sem comer, vomitava sangue. Coisa de gente velha, quarenta e seis anos. Ele passava mal só de ver, ficava doente por dentro. A bichinha tem c-a, ouviu uma vizinha falar no ouvido da outra; lembrou-se da professora, c-a-ca, c-e-ce, c-i-ci; ele ria antes de completar o resto, que besteira. Era por isso que nem ia mais ao colégio, deixou a farda se rasgar. Chato é que não achava muito o que fazer, os outros meninos cresceram, só vivam na aula, não havia nem que o chamasse de filho da puta. Em dia de sol, ficava sentado no meio-fio, fazendo e refazendo o nome na areia por cima do asfalto para não esquecer como se escrevia.

- Lôlo,  vai pra casa que aconteceu uma desgraça, eu não já falei.

- Já vou, já vou, Seu Barradas.

Na porta da casa, bem uma dez pessoas. As vizinhas todo dia conversavam berrando e dando gargalhada; agora falavam baixo e, nas mãos, enrolaram terços. Chega aqui, Lolô; Não, mulher, o nome dele é Lourival; a mamãe foi dormir com papai-do-céu; coitada, tava era magra; ela nem comia mais, não queria ir ao médico, foi desgosto; foi doença feia, isso sim; só contava com o menino pra cuidar dela; mamãe sempre vai olhar pra você, de onde estiver; e quem vai criar ele agora?

Olhou bem para ela. Pálida, de olhos abertos, de camisola, deitada na cama, o cigarro ainda entre os dedos. Foi até a parede e começou a tirar do prego os calendários, um de cada vez, pra ver se o tempo voltava. Não voltou.

- A gente vai cobrir ela agora, Lourival. Seu Barradas já disse que faz o enterro. Tá certo que homem não chora, mas pode chorar porque é mamãe.

- Essa não é mais minha mãe; se fosse não ia fazer isso de morrer.

Saiu abaixando a cabeça para se livrar das mãos que queriam acariciá-la. Voltou para rua, sentou-se e no meio-fio e, com um palito de picolé, começou a escrever no chão. Lourival.

***
Esse conto foi publicado originalmente no livro "Contos de Oficina - número 7", coletânea de trabalhos dos alunos da Oficina de Criação Literária de Raimundo Carrero.