- O espetáculo só começa em meia hora, moço.
- Posso esperar lá dentro, não posso?
- Quer um pacote de pipoca se distrair?
Mastigando, sentou-se na arquibancada vazia, debaixo dos buracos cobertura desbotada. Traves magras unidas por cordas, picadeiro cheirando a serragem, cortinas vermelhas puídas, luzes coloridas na decoração. Coloridas feito o vestido de Conchita. Logo ela ia aparecer, dançando rumba, balançando maracas, dentes brancos em boca encarnada, morena, cabelos de cachos, decote, coxas grossas. Devia ter o quê? Vinte e nove, trinta anos? Mulher mesmo, não feito as meninas sem carne que passavam na porta da usina pra ir ao colégio. Mulher de verdade, não como as quengas abusadas da casa Zefa Catonho, noite de sexta, lá na cidade.
E povo foi chegando, menino, mulher, senhora de bengala, o padre, o dono da bodega, os colegas operários, a esposa do gerente com as filhas pequenas e a empregada. O gerente mesmo não veio, sujeito sério, sem tempo pra essas brincadeiras bestas. Se aparecesse, ia cumprimentar: boa noite, Tião, não tem empregado melhor que tu nessa usina, era o que sempre dizia. E então? Nunca perdia o serviço, moendo a cana pra fazer açúcar e melaço, merecendo o salário no fim do mês, você é cabra bom, Tião, só tá na hora de casar, de ser pai de família, toda vez falava o gerente.
Casar tinha que ser mais Conchita. E rumbeira de circo peba é mulher pra matrimônio? Podia ser, se assim quisesse. Deixava a vida na estrada pra ganhar marido trabalhador, casa pra cuidar, dinheiro pra fazer feira. Rumba só pra meu esposo Tião, e no quarto, de janela fechada. Daquela vez tava querendo falar com ela. Chamava pra tomar um gelado, um passeio de braço dados, uma conversa mansa, quem sabe, custava nada tentar, né?
Que viesse logo o palhaço sem graça, o mágico tirando pombo velho de chapéu, o bode se equilibrado na corda, o mágico de novo, só que agora atirando faca, o palhaço mais uma vez, mas agora dando uma de equilibrista. E o povo besta se acabando de rir e gritar. Jogou no chão o saco vazio de papel, tirou do bolso os fósforos e acendeu um cigarro. Depois que o equilibrista-palhaço findou seu número, o circo ficou às escuras e um senhor gordo, paletó xadrez, bigode preto, devia ser o dono do circo, se aproximou da plateia. Com a mão ordenou que o facho iluminasse o picadeiro, deu um pigarro, falou com voz de comício.
- Respeitável público, o Circo Madrakion agradece sua presença. Logo mais teremos o momento máximo do nosso grande espetáculo, com a dançarina Conchita, beleza inigualável vinda diretamente de Havana, na distante ilha de Cuba. Neste momento, Conchita está ocupada... enquanto ela não vem, vou contar unas piadas pra vocês.
As pessoas sentadas nas tábuas ficaram mudas, aqui e ali uns bateram palmas desencontradas, outros deram muxoxos. Mas antes que o homem gordo conseguisse terminar a primeira anedota, um dos operários se levantou, sai daí, saco de banha, chama logo Conchita, a gente só veio pra ver Conchita, porra, e outros camaradas que estavam com o sujeito ficaram de pé, Conchita, Conchita,Conchita! O gordo ficou vermelho, calma, minha gente, que a rumbeira já vem, o padre subiu a voz e apontou pros rapazes, dobrem a língua, seus maus educados, a velha bateu a bengala no chão e deu uma gargalhada, o dono da bodega reclamou, devolve meu dinheiro, a esposa do gerente foi saindo com as criança e a empregada, dá licença, dá licença. Tião jogou o cigarro, o apagou com uma pisada, também saiu devagar. Lá fora, viu palhaço e mágico de cochichos, nem perceberam que ele se aproximou.
- Rapaz, mais cadê a danada da Conchita? Assim o povo vai dar na gente.
- E demora, viu? Quando ela se encontra com o gerente, não é coisa ligeira. Flagrei os dois se agarrando, se escondendo no canavial.
- Então vamos cair fora agora, meu irmão!
Tião arrodeou a tenda grande, se encostou numa das traves na parte de trás do circo. Mirou o canavial balançando no sereno, um rasto amarelo-lua nas folhas. As canas, Conchinta e o gerente. Acendeu outro cigarro e reparou um monte de serragem seca e melada com óleo de carro. Sob a lona, o povo berrando, cadê a rumbeira, devolve o ingresso, gordo safado, vamos quebrar, quebra, quebra. O padre saiu às pressas amparando a velha que havia perdido a bengala. O bodegueiro tentava arrombar a portinha da bilheteria. Tião puxou com força a fumaça, avermelhando o cigarro. Conchita, as canas e o gerente, caralho.
Pegou do bolso a caixa de fósforos e foi riscando alguns palitos que atirou no monte de serragem. Não demorou pra chama subir, as fagulhas voando bem perto da lona. Afastou-se escutando as tábuas sendo partidas e os berros do bode que a moça da bilheteria tentava salvar. Saiu pela estrada, a cidade não ficava longe. Será que Zefa Catonho ainda tava com a casa aberta? De longe deu pra ver as labaredas comendo o circo numa fogueira gigante.
