Sentado à mesa da cozinha, fixou o olhar na escuridão do pouco de café que contrastava com o branco da xícara velha. O café que ele fazia não prestava. Ficava com um gosto de meia puída tirada do fundo da gaveta. Carmem sabia fazer. Parece que ela esquentava o pó numa frigideira por um ou dois minutos antes de colocar no coador. Quantas vezes a viu ao lado do fogão pintado de azul clarinho e todo riscado, de tocaia para não deixar quebrar a gema do ovo frito, alerta para tirar o bolo do forno na hora certa. Deitada, serena, imóvel dentro do caixão, já não era Carminha. Melhor que a enterraram logo e não insistiram nessa chatice de velório demorado demais.
Pensou em tirar o paletó escuro, teve preguiça. Afrouxou o nó gravata. Passou a mão no rosto e sentiu a barba arranhar. Não usou a gilete desde o dia em que a ambulância levou a mulher ao hospital. Foi rápido demais. Como é que um resfriado vence uma pessoa tão forte? Que pneumonia o quê, doutor! Quando a gente espirra e tosse assim, faz um lambedor, toma uma lapada de conhaque com limão. Mas meteram ela na UTI, olha no que deu. Agora parece que estava ouvindo Carminha mandar ele tirar a roupa com cheiro de cemitério, tomar um banho. Mas não tinha coragem pra nada. Quem ira cuidar dele?

Levantou-se e caminhou até o quarto dos fundos, há anos transformado em escritório. Era um refúgio desde que aceitara a aposentadoria. Estantes cheias de livros. Sobre a escrivaninha uma máquina de escrever, computador não entrava. No chão, pilhas de jornais amarelados, a vida dele resumida naquelas folhas mofadas. Por quantos anos fora editor do jornal? Trinta e tantos. Jornaleco vespertino, diziam. Jornaleco, mas vendia. O patrão nunca se queixou. E vendia porque divertia as pessoas. Ninguém quer saber se a inflação aumentou, se tem guerra nas arábias. O povo gosta de mulher traindo marido, facada no bucho depois do baile de carnaval, gosta de jogo de bola, de foto de boazuda de biquini. Gosta de folhetim, história mentirosa.
Não tinha nada demais numa mentirinha, quase verdade, como a reportagem que o deixou famoso. Estava há dois anos na redação, meio escondido, misturado à equipe da editoria de polícia do jornal. Apreciava o assunto, mas fazer materinha de assalto em loja no Centro e atropelamento de ciclista em rodovia não dava primeira página. Cobrindo o enterro de uma dondoca, dessas de coluna social, que caiu no poço do elevador de um edifício de luxo, viu o coveiro o abrir um sorriso amigável.
- O moço é repórter, né? Tenho uma história quente pra você. Já soube que uma galega malassombra aqui no Santo Amaro?
(...)
Juntou outras histórias sobre a tal assombração. Depoimentos anônimos de supostas testemunhas apavoradas. Para compor a primeira reportagem, acrescentou unas gotas de ficção. Entregou o texto ao editor com uma sugestão de manchete: Fantasma de loira causa terror. Foi parar na capa do jornal.
(...)
Com o sucesso pôde encarar o patrão.
- Faço pro senhor um jornal só desses assuntos escandalosos. Boto ainda sangue, sexo e futebol. Vai chover anunciante.
Ganhou o cargo de editor-executivo de um novo tablóide. Com o aumento de salário, comprou uma casa para viver com Carmem, de quem já era noivo. Mas consideravam a redação a sua residência. Só de madrugada chegava para ver Carminha, que sempre estava acordada, na frente do fogão azul, preparando alguma coisa para ele comer. Foram décadas nessa rotina e poucos momentos de verdadeira convivência. Talvez por isso nunca tiveram filhos.
Era uma tarde cinzenta quando o patrão o chamou para uma conversa. O tablóide já não vendia tanto, as senhoras se chocavam com os seios da chacrete na primeira página, aquela história do nascimento de um menino-demônio fora demais, o interesse do leitor mudou com a abertura política, blá, blá,blá. Recebeu uma gorda indenização, deu entrada na aposentadoria e decidiu viver em paz.
No escritório de casa pretendia escrever livros de mistério. Descobriu que não sabia usar a máquina longe do tumulto da redação. Do pijama fez uniforme. De manhã, lia os jornais com os óculos na ponta do nariz. Matérias burocráticas, sem graça. Carminha colocava os comprimidos do dia no console ao lado da cadeira de balanço, para ele tomar depois de passar a vista nas páginas. Em seguida ela o obrigava a sair para caminhar, pois era bom para o coração e para desentrevar as pernas. Quando voltava era tomar banho e almoçar. Feijão, arroz, bife à milanesa, salada, simples e gostoso.
Um dia Carminha espirrou, tossiu, teve febre. Não sabia como tratá-la. Não sabia nem fazer uma gemada para ela tomar. Duas semanas depois, chamou a ambulância. O médico do hospital balançou a cabeça quando disse ela deveria ter sido trazida antes. No enterro, as duas cunhadas não deram pêsames a ele. Cabeça dura, não cuidou da esposa, agora vai penar sozinho, castigo. No escritório, debruçado sobre a máquina de escrever, chorou pela primeira vez.
(trechos do conto "Adeus, Carminha", de 2012)
Adélia não sabia das coisas do mato, não gostava das brenhas. Terezinha viu isso no primeiro dia em que ela pisou no sítio. Usava sapatos de salto alto, um vestido preto de marca, grandes óculos escuros, cabelo preso no alto da cabeça, colar e pulseira de ouro. Uma mulher fina demais, pronta demais para estar num velório de cemitério pobre do interior. Veio para o enterro da mãe, mas ninguém viu uma lágrima cair dos olhos dela. Nem um gemido, nem um suspiro. Até olhava assustada para as amigas velhas de Dona Manuela, que choravam alto e rezavam o terço com os véus cobrindo as cabeças brancas.
Terezinha pensou que ela só iria assistir ao funeral e ir embora. Isso porque nunca havia visitado a mãe desde que Dona Manuela se mudara para o sítio, longe da vida agitada, de qualquer barulho que fosse, distante de todos os aperreios. Ficava entre Bonito e Palmares, num arruado chamado Bentivi. Era um sítio mimoso, com canteiros de flores, árvores de frutas, uma plantação de inhame junto com alguns pés de legumes, um galinheiro até grande, e uma cacimba lá no fundo de onde se tirava uma água limpa e sem cheiro. No meio, a casa branca com alpendre, toda coberta por telhas inglesas, porta e janelas pintadas de azul.
Tudo era cuidado por Dona Manuela, da mesma forma como fazia as coisas com capricho para o marido quando ele era vivo. Terezinha só conhecia Seu Amós pelo retrato na parede. Homem posudo, de paletó e cara fechada. Fora tabelião em Bonito durante muitos anos. Era sabido para mexer com dinheiro, ficou rico comprando e vendendo terras. Deixou a esposa numa boa situação quando partiu com uns sessenta e poucos anos – o doutor disse que foi derrame; o povo garante que foi tristeza.
Viúva, Dona Manuela mudou-se para o sítio de mala e cuia. Até então, só ia lá nos fins de semana. Esperava passar o resto de vida num canto parecido com o engenho onde ela havia sido criada, menina solta, de pé descalço, no tempo em que era feliz e sabia disso. Viver no sítio, com cheiro de mato, com cheio de terra, só com a zuada dos passarinhos de manhã, era como já estar no céu antes de morrer, dizia. Mas os olhos azuis de Dona Manuela não sorriam quando ela falava isso. Neles havia sempre uma nuvem de desencanto, uma ponta de desgosto quase aparecendo entre os cílios claros. Era por causa de Adélia?
Quando mirava o retrato da filha na cristaleira da sala, os lábios falavam para quem os visse mexer, mas a voz era como um sopro: ingrata, desnaturada, malagradecida. Disseram que a menina fora criada com todo o luxo, quase sem pisar no chão, comendo só o que gostava, com vestidos trazidos da capital e fita cor-de-rosa no cabelo, passeando em cavalinho manso, brincando com bonecas de plástico, pois as bruxinhas da feira ela não queria nem ver. Parece que Seu Amós era besta por ela, fazia todos os gostos, pois filha única de pai rico é como a princesa do castelo. A mãe ainda tentava fazer a danada comer papa de manhã e verdura no almoço, mandava dizer bom dia e obrigado, botava a pirralha de castigo depois da malvadeza com o gato. O marido perdoava, sempre. Adélia se abraçava com o pai e fazia a careta, estirava a língua para Dona Manuela.
Quando virou moça, foi estudar no Recife, interna em colégio de freira. Os pais faziam gosto que se formasse professora. Mas não queria saber de livro, muito menos de rezar. Fugia do internato com as colegas para bater perna na cidade e ficar de paquera com os rapazes. Quando a madre cansou de dar advertência e disse à família que a saída seria a expulsão, Adélia falou ao pai e à mãe que não se preocupassem, pois estava noiva, iria se casar. O noivo era Rodrigues: um corretor de imóveis, sujeito alguns anos mais velho, de paletó bem cortado e que dirigia um carro grande, com bancos de couro e sem capota. Não demorou seis meses para acontecer o casório – o pai suspeitava que, apesar dos dezessete anos, a sua menina já sabia mais da vida do que deveria. Seu Amós bancou a festança, mas não teve o direito de convidar muitos parentes. Os convidados eram quase todos figurões do Recife, advogados, negociantes, políticos, aqui e acolá um jornalista.
O casal foi morar em um apartamento de vários quartos na Boa Vista e vivia em recepções, jantares, viagens, retratos e mais retratos na coluna social. Dos pais, em Bonito, Adélia parecia nem querer se lembrar. Nunca respondia às cartas, atendia aos telefonemas com vontade de encerrar a conversa. Seu Amós, que já era fechado, virou uma ostra - sempre na escrivaninha, de cabeça baixa, a assinar, calado, os papéis do cartório. Ficou carrancudo até morrer. Ficaria ainda mais triste se vivesse para ouvir Adélia dizer, pelo telefone, que iria se divorciar? Isso foi alguns anos depois do pai falecer. Parece que Rodrigues encontrara mulher mais nova, mais bonita e menos gastadeira.
Primeiro, Dona Manuela chorou. Filha dela deixada do marido era um vexame. A culpa era de Adélia, pois não havia dado um rebento que fosse ao marido, não havia formado uma família. Depois a mãe conformou-se. Quem sabe as duas não ficariam mais próximas? E Adélia mudou de vida? Torrava a pensão que recebia de Rodrigues em vestidos, sapatos e bolsas, gastava o que sobrava em champanhes e festas. Da mãe se lembrava de vez em quando, velha cabulosa morando no meio do mato, onde telefone quase não funcionava. Lembrou-se da mãe, sim, quando Rodrigues desapareceu do Recife depois de vender terrenos em área de maré como se perfeitos para a construção de edifícios. A pensão, claro, também sumiu. “Preciso dinheiro para fazer feira”, falava o telegrama que Dona Manuela recebeu. Uma lágrima molhou de leve o papel amarelo e fino.
Enquanto viveu, a mãe sustentou a filha. Mandava para ela parte do rendimento do cartório, que passara a ser administrado por Álvaro, um sobrinho de Seu Amós. Um dia, depois do almoço, Dona Manuela começou a sentir uma dor de cabeça, uma tontura, um nó na garganta. Estava entalada de amargura? Terezinha ainda quis levá-la à cidade para ver o médico, mas ela apenas deu um muxoxo e deitou-se na cama. Suava frio e sussurrava baixinho, misturando rezas e xingamentos. A empregada ficou num pé e noutro, aperreada. O que será da minha patroa? Foi à cozinha, fazer um chá de cidreira. Quem sabe é só problema de nervos? Quando voltou com a xícara na mão, viu os olhos azuis da sua senhora parados como os da imagem de Nossa Senhora no altar da igreja. Terezinha ainda gritou, Dona Manuela, Dona Manuela, mas berrou apenas por causa do susto – entendeu logo que a Dona do sítio não se mexeria nunca mais.
Coube a Terezinha avisar aos vizinhos e chamar os parentes. Álvaro providenciou o velório e o enterro. Foi ele também que mandou um carro buscar Adélia na capital, com a recomendação de que ela trouxesse malas com roupas para ter como ficar até a missa de sétimo dia. Depois da celebração, chamou a prima e Terezinha para o cartório e mostrou a elas um monte de papéis datilografados e rubricados. Disse que a falecida havia feito um testamento deixando para ele o controle dos negócios e, para Adélia, o sítio. Fez de tudo para esconder o sorriso que escapava por baixo do bigode fino. Pigarreou e garantiu à prima que ela iria ficar bem, que o sítio era uma propriedade boa de se morar, que mandaria uma feira para lá toda semana e pagaria o salário de Terezinha. Adélia soltou o primeiro soluço de tristeza desde que havia chegado.
Ao tonar ao sítio, Adélia tirou os óculos escuros de grandes lentes redondas. Terezinha viu os olhos azuis da nova patroa avermelhados de desespero. Não combinava colocar os vestidos novos e finos dela nos cabides magros pendurados no armário antigo de Dona Manuela. As gavetas fundas e escuras da velha cômoda não eram lugar para as joias e bijuterias brilhantes que vieram da capital em caixinhas recobertas de veludo, muito menos para as meias fumê e as camisolas de seda. E não tinha cabimento botar os sapatos de salto alto e os chinelos de pelúcia amarela debaixo da cama, onde antes se escondia o penico de ágata. Aliás, a pele muito branca de Adélia destoava das paredes ligeiramente amareladas da residência de poucos adornos. Era como uma boneca de louça em casinha de brinquedo de menina pobre. Adélia viu seu mundo encolher – as janelas não mostravam as ruas largas e movimentadas do Recife, mas a tranquilidade irritante de um jardim com flores, gramado, caminho de seixos e estátua de anão de Branca de Neve.
Terezinha passou a entender que cadeia não é só aquele cubículo com grades, lá na delegacia. Adélia estava presa agora. O que iria fazer no sítio? Não gostava de botar a mão na terra para cuidar das flores. Das galinhas tinha até nojo. Buscar água na cacimba nem pensar. Cozinhar não sabia. Passava o tempo lendo e relendo revistas velhas que trouxeram da capital. Vez por outra ia à cidade numa charrete guiada por um empregado de Álvaro, mas não aproveitava a viagem curta, pois ia todo o caminho de cabeça baixa. Às vezes, à noite, sentava no sofá marrom da sala, pegava nas mãos o porta-retratos com a foto de Dona Adélia. Os lábios falavam para quem os visse se mexer, mas a voz era como um sopro: desalmada, ranzinza, desnaturada.
(trecho do conto "Azul Avermelhado", publicado no livro Na Escuridão das Brenhas, de 2013)