Pensou em tirar o paletó escuro, teve preguiça. Afrouxou o nó gravata. Passou a mão no rosto e sentiu a barba arranhar. Não usou a gilete desde o dia em que a ambulância levou a mulher ao hospital. Foi rápido demais. Como é que um resfriado vence uma pessoa tão forte? Que pneumonia o quê, doutor! Quando a gente espirra e tosse assim, faz um lambedor, toma uma lapada de conhaque com limão. Mas meteram ela na UTI, olha no que deu. Agora parece que estava ouvindo Carminha mandar ele tirar a roupa com cheiro de cemitério, tomar um banho. Mas não tinha coragem pra nada. Quem ira cuidar dele?
Levantou-se e caminhou até o quarto dos fundos, há anos transformado em escritório. Era um refúgio desde que aceitara a aposentadoria. Estantes cheias de livros. Sobre a escrivaninha uma máquina de escrever, computador não entrava. No chão, pilhas de jornais amarelados, a vida dele resumida naquelas folhas mofadas. Por quantos anos fora editor do jornal? Trinta e tantos. Jornaleco vespertino, diziam. Jornaleco, mas vendia. O patrão nunca se queixou. E vendia porque divertia as pessoas. Ninguém quer saber se a inflação aumentou, se tem guerra nas arábias. O povo gosta de mulher traindo marido, facada no bucho depois do baile de carnaval, gosta de jogo de bola, de foto de boazuda de biquini. Gosta de folhetim, história mentirosa.
Não tinha nada demais numa mentirinha, quase verdade, como a reportagem que o deixou famoso. Estava há dois anos na redação, meio escondido, misturado à equipe da editoria de polícia do jornal. Apreciava o assunto, mas fazer materinha de assalto em loja no Centro e atropelamento de ciclista em rodovia não dava primeira página. Cobrindo o enterro de uma dondoca, dessas de coluna social, que caiu no poço do elevador de um edifício de luxo, viu o coveiro o abrir um sorriso amigável.
- O moço é repórter, né? Tenho uma história quente pra você. Já soube que uma galega malassombra aqui no Santo Amaro?
(...)
Juntou outras histórias sobre a tal assombração. Depoimentos anônimos de supostas testemunhas apavoradas. Para compor a primeira reportagem, acrescentou unas gotas de ficção. Entregou o texto ao editor com uma sugestão de manchete: Fantasma de loira causa terror. Foi parar na capa do jornal.
(...)
Com o sucesso pôde encarar o patrão.
- Faço pro senhor um jornal só desses assuntos escandalosos. Boto ainda sangue, sexo e futebol. Vai chover anunciante.
Ganhou o cargo de editor-executivo de um novo tablóide. Com o aumento de salário, comprou uma casa para viver com Carmem, de quem já era noivo. Mas consideravam a redação a sua residência. Só de madrugada chegava para ver Carminha, que sempre estava acordada, na frente do fogão azul, preparando alguma coisa para ele comer. Foram décadas nessa rotina e poucos momentos de verdadeira convivência. Talvez por isso nunca tiveram filhos.
Era uma tarde cinzenta quando o patrão o chamou para uma conversa. O tablóide já não vendia tanto, as senhoras se chocavam com os seios da chacrete na primeira página, aquela história do nascimento de um menino-demônio fora demais, o interesse do leitor mudou com a abertura política, blá, blá,blá. Recebeu uma gorda indenização, deu entrada na aposentadoria e decidiu viver em paz.
No escritório de casa pretendia escrever livros de mistério. Descobriu que não sabia usar a máquina longe do tumulto da redação. Do pijama fez uniforme. De manhã, lia os jornais com os óculos na ponta do nariz. Matérias burocráticas, sem graça. Carminha colocava os comprimidos do dia no console ao lado da cadeira de balanço, para ele tomar depois de passar a vista nas páginas. Em seguida ela o obrigava a sair para caminhar, pois era bom para o coração e para desentrevar as pernas. Quando voltava era tomar banho e almoçar. Feijão, arroz, bife à milanesa, salada, simples e gostoso.
Um dia Carminha espirrou, tossiu, teve febre. Não sabia como tratá-la. Não sabia nem fazer uma gemada para ela tomar. Duas semanas depois, chamou a ambulância. O médico do hospital balançou a cabeça quando disse ela deveria ter sido trazida antes. No enterro, as duas cunhadas não deram pêsames a ele. Cabeça dura, não cuidou da esposa, agora vai penar sozinho, castigo. No escritório, debruçado sobre a máquina de escrever, chorou pela primeira vez.

Nenhum comentário:
Postar um comentário