segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Quem é Roberto Beltrão

 


Organizou duas coletâneas de contos que têm como tema as lendas e mitos da cultura popular recifense: “Histórias Medonhas do Recife Assombrado” (2002) e “Malassombramentos” (2010).  Escreveu também um livro de crônicas sobre o tema: “Estranhos Mistérios do Recife Assombrado” (2008). As três obras foram publicadas pelas Edições Bagaço.

Pela mesma editora, em dezembro de 2013 publicou “Na Escuridão das Brenhas”: uma reunião de sete contos que tematizam as histórias de assombração e lenda do interior de Pernambuco. O livro ganhou uma segunda edição em 2021.

Em maio de 2014, publicou a coletânea de HQs “Histórias em Quadrinhos d´O Recife Assombrado”, a qual foi organizada em parceria com o roteirista André Balaio. A edição foi resultado de um projeto financiado pelo Funcultura.

Em dezembro do mesmo ano, lançou o livro “Almanaque Pernambucano dos Causos, Mal-assombros e Lorotas” escrito em parceira com a folclorista Rúbia Lóssio e publicado pela Editora Massangana, ligada à Fundaj.

Em agosto de 2015, lançou pelas edições Bagaço o álbum ilustrado “Sete Assombrações em Retratos Falados”. A publicação ganhou uma segunda edição em 2022.

Em fevereiro de 2016, editou a HQ independente “Malassombro: Assovios na Mata”.

Em maio de 2017, lançou o livro “Algumas Assombrações do Recife Velho” (editora Global), adaptação em quadrinhos do livro “Assombrações do Recife Velho”, de Gilberto Freyre – projeto do qual foi coordenador.

Em setembro de 2021, lançou o livro infantil “O Guia da Assombrações para Crianças Corajosas” escrito em parceria com Camilla Inojosa – uma publicação independente.

Coordenou a adaptação em quadrinhos do livro “Nordeste”, de Gilberto Freyre, publicação lançada pela Fundação Gilberto Freyre em dezembro de 2022, com patrocínio do CREA-PE.

Em março de 2024, lançou a coletânea de contos “A Geografia dos Sítios Insanos”, pelo Editorial Casa. O livro é semifinalista do 7º prêmio da ABERST – Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror – na categoria “Narrativa Longa de Terror”.

Atividades como palestrante:

Em 27 de julho de 2012, participou do Festival Pernambuco Nação Cultural como palestrante na mesa redonda “Literatura Fantástica: conversa com autores”, realizada na Casa Grande das Almas, em Triunfo/PE.

Em 18 de novembro de 2012, proferiu a palestra “O Recife Assombrado de Literatura Fantástica” promovida pela União Brasileira de Escritores no âmbito da VIII Festa Literária de Pernambuco (Fliporto), em Olinda/PE.

Em 14 de dezembro de 2012, participou como mediador do debate “O conto noturno romântico” que fez parte da programação do XII Colóquio Cecília Meireles, promovido pelo Departamento de Letras da Universidade Federal de Pernambuco.

Participou da comissão organizadora do 2° e do 4° Congressos de Literatura Fantástica de Pernambuco, realizados respectivamente entre 5 e 8 de março de 2013, e 3 a 5 de dezembro de 2014, no campus da Universidade Federal de Pernambuco, no Recife. Os eventos foram promovidos pelo Departamento de Letras da UFPE.

Em 13 de novembro de 2015, participou do debate “Narrativas Assombrosas” no espaço “Galera” da XI Festa Literária de Pernambuco (Fliporto), em Olinda/PE.

Em julho de 2017, participou Festival de Inverno de Garanhuns (com palestra “Conversa Assombrada: oralidade e literatura”, proferida depois da apresentação do espetáculo “Assombros” – peça com dois atores baseada em textos do próprio Beltrão.

Em 28 de abril de 2018, participou como palestrante do projeto “Roda de Conversa”, promovido pela Academia Pernambucana de Letras – o tema a história da literatura fantástica em Pernambuco.

Em 10 de agosto de 2018, ministrou o minicurso “Literatura e Audiovisual”, no âmbito do Congresso do Núcleo de Literatura e Intersemiose do Departamento de Letras da Universidade Federal de Pernambuco. O evento foi realizado no auditório do Centro de Artes e Comunicação do Campus Recife da UFPE.

Durante a Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, realizada de 4 a 13 de outubro de 2019 no Centro de Convenções, Beltrão participou como debatedor das mesas “Recife Assombrado – O início da jornada”, “Lovecraft e os clássicos da literatura de terror”, “Recife Assombrado – O fantástico entre livros e filmes” e “História Insólita: o folclore e as referências históricas na criação da literatura fantástica”

No 1º Congresso Nacional de Literatura Fantástica, promovido pelo Departamento de Letras da Universidade Federal da Paraíba entre os dias 16 e 18 de outubro de 2024, ministrou o minicurso “As Trilha do Folk Horror”.

sábado, 16 de junho de 2018

Lona Furada

Na frente do espelho, passou a última camada de brilhantina nos cabelos, aprumou a gola do paletó de linho branco, acertou o nó da gravata. Tava arrumado demais? Iam dizer que era só o velho circo Madrakion, aquele de lona furada, pois sempre voltava à vila da usina todo mês de agosto. Que falassem. Saiu pela rua desviando das poças de lama pra não sujar o  sapato engraxado. Na bilheteria, tirou com dedos os amassados da nota antes de entregá-la à mulher do caixa.

- O espetáculo só começa em meia hora, moço.

- Posso esperar lá dentro, não posso?

- Quer um pacote de pipoca se distrair?

Mastigando, sentou-se na arquibancada vazia, debaixo dos buracos cobertura desbotada. Traves magras unidas por cordas, picadeiro cheirando a serragem, cortinas vermelhas puídas, luzes coloridas na decoração. Coloridas feito o vestido de Conchita. Logo ela ia aparecer, dançando rumba, balançando maracas, dentes brancos em boca encarnada, morena, cabelos de cachos, decote, coxas grossas. Devia ter o quê? Vinte e nove, trinta anos? Mulher mesmo, não feito as meninas sem carne que passavam na porta da usina pra ir ao colégio. Mulher de verdade, não como as quengas abusadas da casa Zefa Catonho, noite de sexta, lá na cidade.

E povo foi chegando, menino, mulher, senhora de bengala, o padre, o dono da bodega, os colegas operários, a esposa do gerente com as filhas pequenas e a empregada. O gerente mesmo não veio, sujeito sério, sem tempo pra essas brincadeiras bestas. Se aparecesse, ia cumprimentar: boa noite, Tião, não tem empregado melhor que tu nessa usina, era o que sempre dizia. E então? Nunca perdia o serviço, moendo a cana pra fazer açúcar e melaço, merecendo o salário no fim do mês, você é cabra bom, Tião, só tá na hora de casar, de ser pai de família, toda vez falava o gerente.

Casar tinha que ser mais Conchita. E rumbeira de circo peba é mulher pra matrimônio? Podia ser, se assim quisesse. Deixava a vida na estrada pra ganhar marido trabalhador, casa pra cuidar, dinheiro pra fazer feira. Rumba só pra meu esposo Tião, e no quarto, de janela fechada. Daquela vez tava querendo falar com ela. Chamava pra tomar um gelado, um passeio de braço dados, uma conversa mansa, quem sabe, custava nada tentar, né?

Que viesse logo o palhaço sem graça, o mágico tirando pombo velho de chapéu, o bode se equilibrado na corda, o mágico de novo, só que agora atirando faca, o palhaço mais uma vez, mas agora dando uma de equilibrista. E o povo besta se acabando de rir e gritar. Jogou no chão o saco vazio de papel, tirou do bolso os fósforos e acendeu um cigarro. Depois que o equilibrista-palhaço findou seu número, o circo ficou às escuras e um senhor gordo, paletó xadrez, bigode preto, devia ser o dono do circo, se aproximou da plateia. Com a mão ordenou que o facho iluminasse o picadeiro, deu um pigarro, falou com voz de comício.

- Respeitável público, o Circo Madrakion agradece sua presença. Logo mais teremos o momento máximo do nosso grande espetáculo, com a dançarina Conchita, beleza inigualável vinda diretamente de Havana, na distante ilha de Cuba. Neste momento, Conchita está ocupada... enquanto ela não vem, vou contar unas piadas pra vocês.

As pessoas sentadas nas tábuas ficaram mudas, aqui e ali uns bateram palmas desencontradas, outros deram muxoxos. Mas antes que o homem gordo conseguisse terminar a primeira anedota, um dos operários se levantou, sai daí, saco de banha, chama logo Conchita, a gente só veio pra ver Conchita, porra, e outros camaradas que estavam com o sujeito ficaram de pé, Conchita, Conchita,Conchita! O gordo ficou vermelho, calma, minha gente, que a rumbeira já vem, o padre subiu a voz e apontou pros rapazes, dobrem a língua, seus maus educados, a velha bateu a bengala no chão e deu uma gargalhada, o dono da bodega reclamou, devolve meu dinheiro,  a esposa do gerente foi saindo com as criança e a empregada, dá licença, dá licença. Tião jogou o cigarro, o apagou com uma pisada, também saiu devagar. Lá fora, viu palhaço e mágico de cochichos, nem perceberam que ele se aproximou.

- Rapaz, mais cadê a danada da Conchita? Assim o povo vai dar na gente.

- E demora, viu? Quando ela se encontra com o gerente, não é coisa ligeira. Flagrei os dois se agarrando, se escondendo no canavial.

- Então vamos cair fora agora, meu irmão!

Tião arrodeou a tenda grande, se encostou numa das traves na parte de trás do circo. Mirou o canavial balançando no sereno, um rasto amarelo-lua nas folhas. As canas, Conchinta e o gerente. Acendeu outro cigarro e reparou um monte de serragem seca e melada com óleo de carro. Sob a lona, o povo berrando, cadê a rumbeira, devolve o ingresso, gordo safado, vamos quebrar, quebra, quebra. O padre saiu às pressas amparando a velha que havia perdido a bengala. O bodegueiro tentava arrombar a portinha da bilheteria. Tião puxou com força a fumaça, avermelhando o cigarro. Conchita, as canas e o gerente, caralho.

Pegou do bolso a caixa de fósforos e foi riscando alguns palitos que atirou no monte de serragem. Não demorou pra chama subir, as fagulhas voando bem perto da lona. Afastou-se escutando as tábuas sendo partidas e os berros do bode que a moça da bilheteria tentava salvar. Saiu pela estrada, a cidade não ficava longe. Será que Zefa Catonho ainda tava com a casa aberta? De longe deu pra ver as labaredas comendo o circo numa fogueira gigante.

sábado, 22 de outubro de 2016

Sorriso Campeão



As pedras de dominó escorregavam sobre o tabuleiro de madeira gasta enquanto os amigos faziam caretas e falavam alto. A mesa de alvenaria na praça do bairro era o campo de luta contra o tédio de fim de domingo. Só Argemiro estava mudo, a fazer contas sobre as possibilidades de encaixar a última peça que lhe restava na mão: uma carroça de senas. Os olhos pregados no jogo não viram aproximação de Cilene, luminosa no penteado loiro, desenhada no aperto do jeans, macia no abismo no decote. Ela pôs o dedo indicador sobre o vermelho falso dos lábios, enquanto chegava por trás de Argemiro. Os colegas se calaram para testemunhar o beijo de surpresa que ele recebeu no rosto. E o contato úmido veio como um choque.

- Ôpa, Cilene! Tudo bom? O que foi isso, menina?

- Oxe, a gente não pode mais cumprimentar os amigos, Gegê? Deu vontade... Olha, amanhã passa no salão pra a gente acertar aquele nosso assunto, viu?

O silêncio continuou enquanto ela se afastava em passos miúdos de salto-alto. Os competidores boquiabertos continuaram os lances e nem repararam quando Argemiro enxergou a vitória.

- Bati, pessoal! Lá e ló de carroça! E com essa eu me despeço, que amanhã é dia de branco.

- Tava com sorte, hein, Galho-de-manga? E que história é essa com Cilene?

Fingiu que estar mouco e caminhou rua abaixo de peito estufado. Mas ouviu bem a turma confabular. Olha o cara, por essa nem ele esperava. A galega chamou “pra ver um negócio” no salão. E desde quando esse varapau sabe tratar de negócio com mulher? Depois vai ter que explicar, ah se vai.
Estendeu um raro sorriso de campeão.

Ninguém dava muito crédito a Argemiro. Gegê Galho-de-manga. Desde adolescente, magro de contar as costelas, no alto de pernas descompassadas, braços finos quase sem sincronia.  No futebol do campinho sem grama, o atacante gritava passa pra cá, Galho-de-manga, e a pelota acabava no pé do adversário. Então fica de goleiro, Gegê, e o logo inimigo comemorava o gol feito sem esforço. Acabou escalado como gandula, à procura das bolas perdidas no mato. Nas festinhas de garagem, todas as meninas que chamava para dançar estavam com dor de cabeça ou com uma dorzinha no pé. Mas por que elas iam pra festa mesmo doentes, meu Deus? Ficou adulto sem conhecer mulher que não cobrasse pela intimidade. Os irmãos se casaram e Argemiro ocupando o quarto de solteiro na casa da mãe viúva.

E como mamãe falava! Argemiro, por que tu não passou no vestibular de Odontologia? Eu te dei até nome de doutor, e tu com essa cara de preguiça. Curso técnico de contabilidade, isso é profissão que preste? Passou no concurso da prefeitura? Ajuda a pagar o feijão que come, mas o holerite é muito fraco. Devia ser feito Marcos Antônio, filho de dona Socorro. Policial da Civil, bom salário e ainda estudando Direito de noite pra ser delegado. Tu visse a casa que ele comprou depois que casou com Lurdinha? Três quartos e garagem. E trocou o Fusca por um Kadett e novinho.

Marcos Antônio, o Marcão, também fora criado no bairro, dividindo brincadeiras com Argemiro: bola de gude, futebol de botão, esconde-esconde. Sempre junto de Gegê, a quem nunca chamou de Galho-de-manga. Tá certo que toda vez ganhava na bola de gude, no botão, além de descobrir logo os esconderijos do amigo. Na escola, tirava as maiores notas. Virou rapaz de ombros largos, topete bem escovado, conversa manhosa no ouvido das meninas. Namorou um bocado até noivar com Maria de Lourdes.

Ah, Lurdinha. Rosto de atriz de novela das oito, cabelos pretos em trança, corpo miúdo em vestidos recatados, cheia de bons-dias e boas-noites, por favor e obrigada. Argemiro a faria feliz se tivesse a chance.  Seria a princesa do país de Gegê, a andar com ele de braços dados. Bancaria todos os quereres dela, apenas em troca do sorriso meigo e das noites vividas na mesma cama. Certa vez, lhe deu rosas. Lurdinha mostrou o anel de compromisso ao dizer que não poderia aceitar.

- Gosto de você como irmão, Argemiro. E é tão bonita a sua amizade com Marcos Antônio. Isso fica entre nós, promete?

Gegê cruzou com Marcão no caminho do salão de Cilene. Trocaram aquele abraço, mas a pressa não permitiu mais que duas ou três frases, esse nosso time não tem jeito, passa lá em casa pra um café, dá um abraço em Lurdinha. A cabeleireira o esperava com um monte de documentos e boletos na tarde em que não atenderia à clientela. Daria muito trabalho encontrar uma maneira de dispensar as multas pelos atrasos no pagamento dos impostos municipais cobrados à dona estabelecimento. Como servidor da Coletoria da prefeitura, Argemiro conhecia os caminhos para o descaminho fiscal. Prestar esse tipo de favor a uma amiga querida era ilegal ou imoral? Os dois. Mas quem resistiria à loirice de Cilene, ainda mais quando pedia ajuda choramingando e fazendo biquinho?

A cabeleireira deu outro beijo no rosto de Gegê quando ele saiu à rua depois de horas enfurnado no salão. Os companheiros de dominó espreitavam na esquina e comprovaram a veracidade do contive de Cilene. Logo rodearam o amigo, o arrastaram para a mesa de alvenaria da praça. Conta aí, Galho-de-manga. Tu és foda mesmo! A mulher é primeira de luxo, né não? Como foi que tu chegou junto? Entrou na tua assim, de graça? Conta, conta! Ele apenas pendurou na cara mais um sorriso campeão antes de ir embora.

A turma do dominó fez o relato à galera da sinuca. Tá comendo a galega, a gente tem certeza. Logo a mais gostosa da rua. E ela não é metida a besta, faz cu-doce pra todo mundo? Faz pros outros, mas Galho-de-manga emplacou. E deve estar ganhando corte e lavagem de cabelo de graça, o infeliz.

Os maridos comentaram com as esposas. Aquela tua cabeleireira tá de namorado novo, Gegê Galho-de-manga. Nossa, aquela trepeça do filho de dona Corina? Esse mesmo, tu acredita? Então deve ter alguma coisa muito boa, dinheiro que não é. Pois é um amor roxo, ela nem disfarça.

As esposas conversaram na sacristia antes da missa de domingo. Mas menina, Argemiro e Cilene, tem certeza? E ela vive falando que é noiva de um sujeito rico que mora em São Paulo. Dizem que toda segunda Gegê fica lá no salão horas e horas. Que tanto os dois fazem? O homem tem fôlego, pois Cilene é daquelas fogosas.

Os homens escutaram os cochichos das mulheres. É fogosa, sim, todo mundo sabe. E Gegê tá dando conta. De alesado só tem a cara. Também, não vê a envergadura do cabra? Quase dois metros! Se for proporcional... Alguém já conferiu, assim, de relance, no banheiro do bar? Isso é coisa que não se repara, meu irmão! Mas só pode ser isso. E ele ouviu a saudação do motorista do ônibus quando
descia na parada, chegando do expediente:

- Grande, Argemiro! Gegê Mangará-de-banana!

Por onde passava era apontado. Ficavam espiando e usavam a mão para esconder o risinho. As moças, então, pareciam estar de olhos mais abertos para vê-lo. Nunca havia recebido tantos bons-dias e boas-tardes. Agora caminhava de nariz empinado. Quase não percebeu Lurdinha acenando do outro lado da rua quando saía de casa pro trabalho naquela manhã de sexta-feira.

- Gegê, nunca mais você apareceu lá em casa. Então vai amanhã, depois das oito. Combinado?
Na noite do sábado, foi estranho encontrar Lurdinha maquiada, de cabelos soltos, perfumada, a esperar no terraço. Ela sorriu e fez um gesto para ele entrar ligeiro. Mais esquisito ainda foi não encontrar o Marcão.

- Tá no plantão da delegacia, sabe como é policial.

Acomodado no sofá, copo de cerveja na mão, percebeu como estava suave a voz da amiga. Falava que queria muito bem a ele, um cara conhecido na vizinhança, agora tão diferente do menino tímido, que nunca dançava nas festas, tinha ouvido falar tantas coisas dele nos últimos dias, coisas que ela nem desconfiava. E dizia tudo aquilo se remexendo de leve no sofá para diminuir o espaço entre os dois. Quando a perna lisinha, exposta pelo vestido curto, finalmente roçou a calça de brim, Lurdinha sussurrava.

- Você já quis me beijar, né, Gegê? Me beija agora...

- Que é isso, Lurdinha! Tá me estranhado! Um dia você mesmo lembrou a minha amizade com Marcão.

- É que teu amigo não sabe ser esposo. Só vive na delegacia, ou então agarrado com os livros de Direito. Hora pra mim não tem. Tá sempre cansado e dorme. Passo o dia e a noite sozinha...

Lágrimas começaram a borrar a maquiagem. Ele ficou na dúvida entre rir ou chorar. Os braços finos entraram em perfeita sincronia ao envolverem o corpo pequeno. No quarto, a princesa se revelou governante cheia de caprichos, disposta a não deixar o súdito esmorecer. Deles era todo um país de desejos, território invadido sem trégua até o sol estufar de luz a cortina cinzenta.

Lurdinha dormia nua, enroscada ao peito de Argemiro. O espelho da cômoda comprovava que não era sonho. Estava mesmo na cama do velho amigo abraçado com a mulher dele. Para ser o Marcão, só faltava o distintivo e o Kadett. Aí seria lá e lô. De carroça. Será que teria outra vitória daquelas na vida? Escutou a porta do quarto ranger devagar.

- Cadê você, amor? Chequei mais cedo da delegacia.... Argemiro! Lurdinha! Que palhaçada é essa?

Viu a mão de Marco Antônio tremer ao puxar o trinta e oito da cintura. Poderia ter implorado perdão, poderia ter inventado que bebera demais, que não era bem aquilo que parecia ser, pedido que tivesse calma, pensasse bem antes de fazer alguma besteira. Mas lembrou de cada gol sofrido no futebol
 de botão, de cada bola de gude perdida. Desta vez não se importou de ter o esconderijo descoberto.

- Foi mal aí, Marcão. Mas vamos combinar que tu vacilou. Que culpa eu tenho se tua mulher tava carente?

No velório de Gegê, Cilene não parava de suspirar. Lurdinha também havia chorando muito junto ao caixão antes de ser levada à delegacia para prestar depoimento sobre o marido foragido. Usando paletós escuros, os colegas de dominó se juntaram num canto do salão. Mas esse Galho-de-manga não valia nada mesmo, caladinho e passando o rodo, sempre desconfiei, se fazia de besta, mas urso guloso demais acaba na mira de corno brabo, pode ser impressão minha, mas repara bem o defunto: não parece que morreu sorrindo?


domingo, 6 de setembro de 2015

Fivelas Douradas

Naquela manhã de segunda, Laís entrou na sala da administração com passos felinos. As pisadas faziam um barulho seco contra o assoalho. O que havia mudado nela? Era o mesmo cabelo castanho preso num rabo-de-cavalo, os olhos pequenos escondidos pelas lentes dos óculos de armação azul, mais uma daquelas blusas de cor discreta sem decote e com mangas compridas, o jeans de corte reto. Contra os seios apertava uma pasta escura cheia de documentos. Norberto respondeu com um oi ao bom-dia que recebeu e ficou com olhar vidrado, querendo decifrar a colega.

Conhecia Laís há dois anos, dois anos e meio? Um sorriso tímido quase permanente. Pouco vinha de sua boca o que não fosse referente ao trabalho. As listas de despesas mensais da firma, o registro das horas-extras dos funcionários, o contato com as prestadoras de serviço. A voz aguda só ficava um pouco mais melodiosa ao comentar a saída de fim de semana com Souza, o marido. Vimos um filme bacana, ou Souza me levou àquele barzinho da moda, ou ficamos numa pousada naquela praia distante. Eram frases curtas, notas de rodapé da rotina feitas de números e jargões.

 Norberto costumava responder sem tirar a vista da tela do computador, filme legal, mas tem um fim meio triste, o barzinho não conheço, fui nessa praia há dois meses com Sandra e os meninos. No mais era silêncio cortado por campainhas telefônicas, estalos de grampeadores e dedos batucando as teclas. Labuta diária sob a supervisão metódica do gerente, que ficava na sala ao lado. Mas, naquele momento, ele deixou as planilhas incompletas e continuou a observar a mulher na mesa ao lado. Mulher que, pela primeira vez, usava sandálias de tiras finas e saltos altos. Ah, então era isso. Antes só vinha de sapatilhas baixas e fechadas.

E não é que Laís tinha pés? Pequenos e alvos. Com dedos roliços e delicados. Unhas tratadas com esmalte incolor. Curvas desenhadas com precisão na parte de cima e no calcanhar de sola macia. Fixou os olhos naquelas esculturas. O mundo ficou quieto por um segundo infinito. O coração bombeava uma onda de satisfação calada.

- Perdeu alguma coisa no chão, Nonô?

- Reparei nos seus sapatos novos.

- Souza me deu. Quer dizer, escolhi no shopping e ele pagou. Presente de quatro anos de casamento. Chiques, né?

- Bonitos, sim. Realçaram muito os seus pés.

O rubor pintou a face Laís. Os dois se voltaram para suas escrivaninhas, compenetrados nos afazeres. Mas, a cada minuto, ele encaminhava o foco para os pezinhos da colega. Instantes de rápida satisfação. Olhadelas furtivas para Laís não perceber. Valor das diárias, lindo dedão redondo; código de atualização, o mindinho também é delicioso; cheques compensados, e repara como a pele é lisinha. O expediente passou leve para Norberto. Até lamentou o fim da jornada. Pena que, possivelmente, no dia seguinte as sapatilhas voltariam a esconder aquelas coisas mimosas.

Mas não. Na terça, Laís calçava outras sandálias abertas. Ele não fez nenhum comentário e repetiu a sutil espreita. Às vezes tinha a impressão que ela percebia a espionagem. Então dava um pigarro e fingia usar o telefone, batendo com força nas teclas, alô, alô, esse ramal só dá ocupado, assim fica difícil. É, ficou difícil mesmo quando ela veio de novo com sapatos finos na quarta. Era outro modelo, tão revelador quanto os anteriores. E daí em diante, as sapatilhas não foram mais vistas. Talvez até houvessem sido doadas para caridade. Laís passara a caminhar com mais frequência pelo escritório. Sempre se dispunha a trazer o cafezinho ou a levar o contrato para o chefe assinar.

- Você tá bem, Nonô? Tenho te achado calado esses dias.

- Tô ótimo. Só fico ligado aqui pra não deixar o serviço acumular. Sabe como é: fim de mês é fogo.

Dava calor essa constante espionagem. Esquentava mesmo depois da hora de largar. Via a novela ao lado da esposa sem prestar atenção à trama. O que era a beleza fria das atrizes se comparada à gostosura dos pés de Laís? Depois do capítulo, na cumplicidade do quarto de porta trancada por causa das crianças, Norberto amava Sandra com vigor e fôlego de namorado, sem dizer uma palavra, enquanto imagina os pezinhos que iria rever no dia seguinte.

 Norberto viveu pouco mais de uma semana nesse doce suplício. Numa quinta-feira, Laís passou pela porta sem a leveza do andar e com a testa franzida.

- O que você tem, Lalá? Tá sentindo alguma dor?

- Ai, Nonô. Hoje me arrependi de calçar essas
sandálias. Ontem Souza me convenceu a ir ao estádio. Você sabe que nem gosto de futebol, mas ele terminou me arrastando...

- Imagino.

- A arquibancada estava lotada e ficamos em pé o tempo todo. E olha que o time do Souza perdeu de três a zero. Voltamos pra casa super tarde. Dormi mal e agora os meus pés estão matando.

   Ele sorriu no canto dos lábios. Souza, Souza, isso é coisa que se faça? Levar a bichinha para ver o time fazer vergonha? Não era melhor ficar em casa, tomar um vinho, trazer ela para cama e marcar um ou dois gols de placa?

- Ah, amiga. É fácil melhorar isso. Quando a Sandra está com os pés doloridos, resolvo rapidinho. Sou especialista, garanto. Você me permite?

Laís concordou com um balançar de cabeça, embora o rosto desenhasse uma expressão de incredulidade. Ele perguntou se ela tinha um hidratante de mãos na bolsa e Laís pôs sobre a escrivaninha um tubo plástico cheio de um creme perfumado. Norberto aproximou-se sem sair da cadeira de rodinhas e colocou os pés da colega no colo. Quase em câmera lenta, desatacou as fivelas douradas e retirou as sandálias. Em seguida besuntou as mãos com hidratante e iniciou uma massagem. Ela arregalou o olhar e permaneceu parada.

Os dedos longos de Norberto acariciavam os pés com firmeza. Alternavam os toques entre o esquerdo e o direito. Os polegares faziam pequenos círculos nos calcanhares. Depois formavam pinças com o indicador para puxar cada dedo dos pezinhos de Laís. As palmas dele deslizavam ligeiras na pele clara, com a sofreguidão de bicho feroz que captura a presa. Em outros momentos, mãos e pés se entrelaçavam num abraço cálido, fricção plena de ternura. Ela começou a respirar fundo. Os olhos se fechavam e os lábios se contorciam em breves mordidas. Num gesto rápido, soltou os cabelos amordaçados pelo rabo-de-cavalo e inclinou a cabeça para trás. Ele pensou estar ouvindo discretos gemidos misturados ao ruído do ar condicionado.

- Pessoal, esses relatórios estão incompletos. Preciso deles fechados até às...opa!

O gerente, que havia entrado na sala de cabeça baixa, calou-se ao enxergar a cena. Sem dizer mais nada, jogou alguns papéis sobre as escrivaninhas e saiu batendo a porta. Os dois se largaram. As mãos dela tremiam ao fechar as fivelas das sandálias. Não trocaram palavras, nem se encararam até a hora de largar. Às cinco da tarde, Laís saiu acelerada e não pareceu ouvir o até amanhã dado pelo colega.

Ele foi para casa com a cabeça pesando uma tonelada. O que fizera, meu Deus? Fora tomado por uma obsessão, isto sim. E o pior: se aproveitara da candura de uma moça tão simples. Ela ia ficar desconfiada para o resto da vida, com certeza. E o Souza, o que iria pensar? Isso sem falar no carrasco do gerente – podia contar o que viu ao pessoal dos outros departamentos. Naquela companhia, cheia de maledicências e futricas, seria a fofoca do ano. E se alguém fizesse algum comentário a Sandra? À noite não pregou o olho. Entre os lençóis, se mexia como um náufrago cansado de nadar para uma ilha no horizonte.

Na quinta-feira, chegou ainda mais cedo à firma. Abriu a sala e sentou-se em seu posto. Ficou imóvel, imaginando o que iria dizer a Laís. Ela chegou meia-hora depois, trazida pelos mesmos passos felinos.

- Oi, Nonô. Você soube que o gerente foi chamando às pressas para uma reunião na matriz? Vai passar dois dias em São Paulo. Me mandou um e-mail ontem à noite para avisar.

- É mesmo? Mais trabalho pra gente, né?

- Pois é...

Laís espalhou um sorriso com jeito de manhã ensolarada de domingo. Abriu a bolsa e tirou o plástico cheio de creme perfumado. Colocou a embalagem sobre a escrivaninha, sentou-se na cadeira, apoiou bem os braços e esticou as pernas junta em direção a Noberto. Ele colocou os pezinhos dela no colo e começou desatacar as fivelas das sandálias.

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Conto publicado na antologia "Todo Amor Vale a Pena" (Organizada pelo escritor Paulo Caldas, Edições Bagaço/2015

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Atirador de Facas


               
Mas por que alguém ia querer saber de uma história inventada sobre gente que não existe? Ela disse isso com um sorriso no canto da boca. Levantou-se da mesa falando que ele devia fazer um concurso público para ter salário bom e estabilidade. Colocou os óculos escuros com grandes lentes redondas, acenou um tchau burocrático e saiu equilibrando-se no salto alto sobre o chão irregular das passagens estreitas do Mercado da Madalena. Enquanto se afastava, deu para ver ainda melhor a pernas bem desenhadas expostas pela minissaia jeans, os cabelos cacheados e fartos caindo sobre os ombros morenos.

 Engraçado. Ela pareceu perder todo interesse quando ele falou, entre um gole de café e outro, que era escritor e estava tentado viver de literatura. Na noite anterior, ao se acharem num bar, riu com todos os dentes quando ele lhe falou alguns versos bobos que sabia de cabeça. Não resistiu ao beijo, arrepiou-se ao sentir a mão dele explorando suas coxas grossas e depois nem reclamou da falta de luxo do motel com pernoite de trinta reais.  De manhã, achou até charmosa a proposta de tomarem um café com pão francês e queijo coalho na praça de alimentação do mercado. O brilho dos olhos claros só sumiu quando entendeu o triste vício do acompanhante.

Para que falar dessa mania feia de escrever? Tá certo que o primeiro romance publicado havia feito algum sucesso e até rendido umas fotos nos caderno de cultura dos jornais. Mas ler, a gente sabe, é costume sem graça de alguns poucos chatos intelectuais. Ele estava se convencendo de que era melhor ser escritor nas sombras, como um fantasma das palavras, criando histórias em segredo, publicando livros sem fazer alarde. Melhor parecer normal aos olhos dos outros. Quando vinha quase se perdendo no horizonte dessas elucubrações, viu alguém conhecido sentado numa mesa próxima.

Enquanto todos em volta riam e falavam alto, o homem estava ao lado de uma garrafa de cerveja que parecia ser mais amarga naquela manhãzinha de sábado. Ele levava o copo americano à boca e fazia uma careta de angústia. Gotas de espuma branca enfeitavam por alguns instantes a barba escura e farta. Envergava uma camisa estampada, mas há muito esquecida das cores berrantes, e uma calça preta com joelhos esbranquiçados. No peito, um medalhão com a estrela de Davi suspenso por uma grossa corrente prateada.

O medalhão. Não havia dúvida, era ele mesmo. Mas como? O escritor sabia toda a história daquele sujeito. Aquiles Rodriguez, o fabuloso atirador de facas do Circo Mandrakion. Na verdade, era Pedro dos Santos. Fugiu aos dezesseis anos com a trupe circense que se apresentou no vilarejo perdido no interior onde o menino morava. Aprendeu a armar a lona, trabalhou na bilheteria, vendeu pipoca. Logo caiu nas graças de Alonso, o atirador de facas. O mestre o ensinou todos os segredos da pontaria. Meses de ensaios teimosos até entender como apagar à distância o cigarro na boca da assistente de Alonso - Conchita  Dolores, sempre impávida e serena diante do grande alvo cheio de círculos.

Numa noite chuvosa, Alonso morreu no camarim depois de se apresentar a uma plateia magra e cética. Xingavam e pediam para ver o sangue da assistente que arriscava a vida para divertir o respeitável público. O atirador encerrou o número antes da hora e foi para os bastidores amaldiçoando a dor que sentia no peito. Foram só alguns minutos até o suspiro derradeiro. A assistente, que também era mulher de Alonso, só esperou o enterro para avisar que deixaria a vida mambembe - ia se amigar com um policial que conhecera no velório. Coube a Pedro virar Aquiles e assumir a responsabilidade de principal atração do circo, abaixo apenas do Palhaço Pililiu, que também era dono da lona, o patrão do empreendimento artístico. Mas era preciso encontrar uma nova acompanhante, uma moça destemida para se expor ao perigo das facas. Só estourar balões presos ao alvo não tinha graça nenhuma.

No burburinho da feira, numa cidade pequena por onde o circo passou, Aquiles distinguiu Maria Amélia. Sustentava na cabeça um balaio cheio de mangas.  As pernas muito alvas e longas driblavam os tabuleiros com frutas e verduras que disputavam o espaço apertado. Os cabelos lisos escondiam metade do rosto. Cabelos avermelhados que iam até a cintura fina e bem desenha pelo vestido de chita. Uma menina que feita de fogo, fogo que queimou o coração de Aquiles na primeira noite dos dois escondidos no mato para os irmãos dela não verem. Maria Amélia não contou a ninguém que fugiria com o circo. Mesmo porque painho a expulsaria de casa quando entendesse que não era mais moça.

E como aquelas pernas alvas e longas ficaram ainda mais belas cobertas por uma meia-arrastão, reveladas pelo lascão do vestido longo de veludo. Com as luvas negras nas mãos, nem parecia mais com aquela moleca de feira, vendendo manga para ajudar o sustento da família. Aquiles fazia a pontaria mais precisa, pois nada deveria machucar o seu tesouro. Melhor que os aplausos, só o corpo quente de Maria Amélia na cama improvisada dentro da Kombi do circo. Maria Amélia, não. Agora era Rúbia Passion, espanhola sedutora e destemida, a quem as lâminas afiadas jamais deveriam ferir. Com o primeiro cachê, ela comprou um colar prateado com uma estrela de seis pontas para enfeitar o peito do seu homem.

Um dia Rúbia quedou grávida. Teve a certeza com o atraso nas regras e os vômitos constantes. Mesmo com a barriga crescendo, não deixou seu papel de estátua diante do alvo. O público ficava ainda mais interessado em ver uma mulher buchuda desfiando as facas certeiras do marido. O menino veio à luz no aperto dos bancos da Kombi, recebido por uma parteira. Menino corado e forte, lágrimas escorrendo no rosto duro de Aquiles. Atirador de facas e pai de família. Logo o rebento iria correr em volta da lona armada, quem sabe aprender a manejar as lâminas, primeiro herdeiro de uma nova tradição circense.

Mas, com o menino crescendo, uma nuvem negra surgiu no céu ensolarado que Aquiles enxergava no futuro. Olha o nariz do pirralha. Nariz grande, tipo bico de papagaio, em tudo parecido com o nariz do Palhaço Pililiu - venta gigante que facilitava o seu trabalho de arrancar risos de crianças e velhos. Será? Não, Maria Amélia não faria uma covardia dessas. E Rúbia Passion, com sua meia-arrastão, com suas luvas negas, faria? Aquiles desejou voltar a ser Pedro, roceiro que poderia ter casado com a moça do sítio vizinho – feinha, mas de boa família. A vida livre na estrada, a descoberta de novas cidades, os gritos de é o maior, é o maior, vindos da plateia, nada tocava mais a sua alma acinzentada. Será que você foi covarde assim, Maria Amélia?

Numa tarde de domingo, antes da apresentação, aceitou o convite de Pililiu para dividirem uma garrafa de cachaça. A aguardente queimava menos que o fel da desconfiança. Mas nada dizia nem reclamava, porque não tinha como ter a certeza do que havia acontecido. O palhaço contava piadas repetidas e ele tentava engolir a bebida. De repente, o menino passou correndo atrás de uma bola e dando cambalhota. Pililu gracejou:

 - Sei não, Aquiles... Esse tá com toda pinta de que vai ser palhaço.

O atirador jogou o pequeno copo que tinha nas mãos contra um dos postes que segurava a lona. Foi para a Kombi e trancou-se para esperar a hora da apresentação. Aquiles, meu lindo, se avexe que está na sua hora, disse Rúbia batendo na porta do carro, já em seu vestido de veludo preto. Ele saiu sem dizer uma palavra. Pisou no picadeiro sem o sorriso que costumava trazer aos espetáculos. A mulher, sim, sorria encostada ao alvo. Cínica? Mentirosa? A primeira faca ficou enfiada junto à orelha direita de Rúbia. Um suor viscoso pingou da testa dele. Que rosto tão lindo, meu Deus, sempre pareceu um anjo. A segunda faca cortou ao meio o cigarro que ela segurava com os lábios. Anjo ou diaba do cabelo de fogo? O nariz de Pililiu estava no rosto do menino que acenava para mãe dos bastidores. A mão que segurava a faca tremeu no tempo de um piscar de olhos. A lâmina ganhou vida e seguiu o caminho que quis. Furou o vestido pouco acima do seio esquerdo. Maria Amélia gritou antes de cair no chão, fazendo a serragem ficar pegajosa e vermelha.

Sim, o escritor conhecia aquele homem que agora dividia solidão e amargura com uma garrafa de cerveja na mesa posta entre os boxes do Mercado da Madalena. Conhecia porque a história de Aquiles, o atirador de facas, tinha sido escrita no computador dele e depois de ser concebida em noites de quieta insônia. Aquiles e Rúbia fizeram do seu romance um sucesso, mesmo que entre poucos – deram a ele o título de ficcionista publicado que agora ostentava. Mas sentiu um nó no peito ao ver ali o seu personagem materializado. Só o sofrimento agrada aos leitores? Olhem o que foi feito da vida desse homem? Espírito esfarrapado pela dor de um assassinato circense, tragédia barata para compor folhetim de segunda categoria. Foi até a mesa de Aquiles. Sentou-se e colocou a mão no ombro do atirador de facas.

 - Desculpe pelo mal que eu lhe fiz. Agora entendo como foi errado tirar você dos meus pensamentos só para mostrar aos outros que sei escrever ficção.

 Aquiles levantou o rosto e mirou bem nos olhos do interlocutor.

 - Não se preocupe, irmão. Quem sabe onde termina o pensar e começa a vida de verdade? Será que não fui eu que sonhei com um escritor que contava a minha história?  Aproveite a fama, se ela se agradar de você. E me faça um favor: pague essa cerveja que estou liso.

O homem levantou-se devagar, caminhou sem pressa até a calçada em frente ao mercado e seguiu sabe Deus para onde. O escritor nunca mais viu o personagem. Mas concebeu tantos outros em noites insones e manhãs na frente do computador. Fez muitas pessoas lerem histórias inventadas sobre gente que não existe.