domingo, 6 de setembro de 2015

Fivelas Douradas

Naquela manhã de segunda, Laís entrou na sala da administração com passos felinos. As pisadas faziam um barulho seco contra o assoalho. O que havia mudado nela? Era o mesmo cabelo castanho preso num rabo-de-cavalo, os olhos pequenos escondidos pelas lentes dos óculos de armação azul, mais uma daquelas blusas de cor discreta sem decote e com mangas compridas, o jeans de corte reto. Contra os seios apertava uma pasta escura cheia de documentos. Norberto respondeu com um oi ao bom-dia que recebeu e ficou com olhar vidrado, querendo decifrar a colega.

Conhecia Laís há dois anos, dois anos e meio? Um sorriso tímido quase permanente. Pouco vinha de sua boca o que não fosse referente ao trabalho. As listas de despesas mensais da firma, o registro das horas-extras dos funcionários, o contato com as prestadoras de serviço. A voz aguda só ficava um pouco mais melodiosa ao comentar a saída de fim de semana com Souza, o marido. Vimos um filme bacana, ou Souza me levou àquele barzinho da moda, ou ficamos numa pousada naquela praia distante. Eram frases curtas, notas de rodapé da rotina feitas de números e jargões.

 Norberto costumava responder sem tirar a vista da tela do computador, filme legal, mas tem um fim meio triste, o barzinho não conheço, fui nessa praia há dois meses com Sandra e os meninos. No mais era silêncio cortado por campainhas telefônicas, estalos de grampeadores e dedos batucando as teclas. Labuta diária sob a supervisão metódica do gerente, que ficava na sala ao lado. Mas, naquele momento, ele deixou as planilhas incompletas e continuou a observar a mulher na mesa ao lado. Mulher que, pela primeira vez, usava sandálias de tiras finas e saltos altos. Ah, então era isso. Antes só vinha de sapatilhas baixas e fechadas.

E não é que Laís tinha pés? Pequenos e alvos. Com dedos roliços e delicados. Unhas tratadas com esmalte incolor. Curvas desenhadas com precisão na parte de cima e no calcanhar de sola macia. Fixou os olhos naquelas esculturas. O mundo ficou quieto por um segundo infinito. O coração bombeava uma onda de satisfação calada.

- Perdeu alguma coisa no chão, Nonô?

- Reparei nos seus sapatos novos.

- Souza me deu. Quer dizer, escolhi no shopping e ele pagou. Presente de quatro anos de casamento. Chiques, né?

- Bonitos, sim. Realçaram muito os seus pés.

O rubor pintou a face Laís. Os dois se voltaram para suas escrivaninhas, compenetrados nos afazeres. Mas, a cada minuto, ele encaminhava o foco para os pezinhos da colega. Instantes de rápida satisfação. Olhadelas furtivas para Laís não perceber. Valor das diárias, lindo dedão redondo; código de atualização, o mindinho também é delicioso; cheques compensados, e repara como a pele é lisinha. O expediente passou leve para Norberto. Até lamentou o fim da jornada. Pena que, possivelmente, no dia seguinte as sapatilhas voltariam a esconder aquelas coisas mimosas.

Mas não. Na terça, Laís calçava outras sandálias abertas. Ele não fez nenhum comentário e repetiu a sutil espreita. Às vezes tinha a impressão que ela percebia a espionagem. Então dava um pigarro e fingia usar o telefone, batendo com força nas teclas, alô, alô, esse ramal só dá ocupado, assim fica difícil. É, ficou difícil mesmo quando ela veio de novo com sapatos finos na quarta. Era outro modelo, tão revelador quanto os anteriores. E daí em diante, as sapatilhas não foram mais vistas. Talvez até houvessem sido doadas para caridade. Laís passara a caminhar com mais frequência pelo escritório. Sempre se dispunha a trazer o cafezinho ou a levar o contrato para o chefe assinar.

- Você tá bem, Nonô? Tenho te achado calado esses dias.

- Tô ótimo. Só fico ligado aqui pra não deixar o serviço acumular. Sabe como é: fim de mês é fogo.

Dava calor essa constante espionagem. Esquentava mesmo depois da hora de largar. Via a novela ao lado da esposa sem prestar atenção à trama. O que era a beleza fria das atrizes se comparada à gostosura dos pés de Laís? Depois do capítulo, na cumplicidade do quarto de porta trancada por causa das crianças, Norberto amava Sandra com vigor e fôlego de namorado, sem dizer uma palavra, enquanto imagina os pezinhos que iria rever no dia seguinte.

 Norberto viveu pouco mais de uma semana nesse doce suplício. Numa quinta-feira, Laís passou pela porta sem a leveza do andar e com a testa franzida.

- O que você tem, Lalá? Tá sentindo alguma dor?

- Ai, Nonô. Hoje me arrependi de calçar essas
sandálias. Ontem Souza me convenceu a ir ao estádio. Você sabe que nem gosto de futebol, mas ele terminou me arrastando...

- Imagino.

- A arquibancada estava lotada e ficamos em pé o tempo todo. E olha que o time do Souza perdeu de três a zero. Voltamos pra casa super tarde. Dormi mal e agora os meus pés estão matando.

   Ele sorriu no canto dos lábios. Souza, Souza, isso é coisa que se faça? Levar a bichinha para ver o time fazer vergonha? Não era melhor ficar em casa, tomar um vinho, trazer ela para cama e marcar um ou dois gols de placa?

- Ah, amiga. É fácil melhorar isso. Quando a Sandra está com os pés doloridos, resolvo rapidinho. Sou especialista, garanto. Você me permite?

Laís concordou com um balançar de cabeça, embora o rosto desenhasse uma expressão de incredulidade. Ele perguntou se ela tinha um hidratante de mãos na bolsa e Laís pôs sobre a escrivaninha um tubo plástico cheio de um creme perfumado. Norberto aproximou-se sem sair da cadeira de rodinhas e colocou os pés da colega no colo. Quase em câmera lenta, desatacou as fivelas douradas e retirou as sandálias. Em seguida besuntou as mãos com hidratante e iniciou uma massagem. Ela arregalou o olhar e permaneceu parada.

Os dedos longos de Norberto acariciavam os pés com firmeza. Alternavam os toques entre o esquerdo e o direito. Os polegares faziam pequenos círculos nos calcanhares. Depois formavam pinças com o indicador para puxar cada dedo dos pezinhos de Laís. As palmas dele deslizavam ligeiras na pele clara, com a sofreguidão de bicho feroz que captura a presa. Em outros momentos, mãos e pés se entrelaçavam num abraço cálido, fricção plena de ternura. Ela começou a respirar fundo. Os olhos se fechavam e os lábios se contorciam em breves mordidas. Num gesto rápido, soltou os cabelos amordaçados pelo rabo-de-cavalo e inclinou a cabeça para trás. Ele pensou estar ouvindo discretos gemidos misturados ao ruído do ar condicionado.

- Pessoal, esses relatórios estão incompletos. Preciso deles fechados até às...opa!

O gerente, que havia entrado na sala de cabeça baixa, calou-se ao enxergar a cena. Sem dizer mais nada, jogou alguns papéis sobre as escrivaninhas e saiu batendo a porta. Os dois se largaram. As mãos dela tremiam ao fechar as fivelas das sandálias. Não trocaram palavras, nem se encararam até a hora de largar. Às cinco da tarde, Laís saiu acelerada e não pareceu ouvir o até amanhã dado pelo colega.

Ele foi para casa com a cabeça pesando uma tonelada. O que fizera, meu Deus? Fora tomado por uma obsessão, isto sim. E o pior: se aproveitara da candura de uma moça tão simples. Ela ia ficar desconfiada para o resto da vida, com certeza. E o Souza, o que iria pensar? Isso sem falar no carrasco do gerente – podia contar o que viu ao pessoal dos outros departamentos. Naquela companhia, cheia de maledicências e futricas, seria a fofoca do ano. E se alguém fizesse algum comentário a Sandra? À noite não pregou o olho. Entre os lençóis, se mexia como um náufrago cansado de nadar para uma ilha no horizonte.

Na quinta-feira, chegou ainda mais cedo à firma. Abriu a sala e sentou-se em seu posto. Ficou imóvel, imaginando o que iria dizer a Laís. Ela chegou meia-hora depois, trazida pelos mesmos passos felinos.

- Oi, Nonô. Você soube que o gerente foi chamando às pressas para uma reunião na matriz? Vai passar dois dias em São Paulo. Me mandou um e-mail ontem à noite para avisar.

- É mesmo? Mais trabalho pra gente, né?

- Pois é...

Laís espalhou um sorriso com jeito de manhã ensolarada de domingo. Abriu a bolsa e tirou o plástico cheio de creme perfumado. Colocou a embalagem sobre a escrivaninha, sentou-se na cadeira, apoiou bem os braços e esticou as pernas junta em direção a Noberto. Ele colocou os pezinhos dela no colo e começou desatacar as fivelas das sandálias.

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Conto publicado na antologia "Todo Amor Vale a Pena" (Organizada pelo escritor Paulo Caldas, Edições Bagaço/2015

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