As pedras de dominó escorregavam sobre o tabuleiro de madeira gasta enquanto os amigos faziam caretas e falavam alto. A mesa de alvenaria na praça do bairro era o campo de luta contra o tédio de fim de domingo. Só Argemiro estava mudo, a fazer contas sobre as possibilidades de encaixar a última peça que lhe restava na mão: uma carroça de senas. Os olhos pregados no jogo não viram aproximação de Cilene, luminosa no penteado loiro, desenhada no aperto do jeans, macia no abismo no decote. Ela pôs o dedo indicador sobre o vermelho falso dos lábios, enquanto chegava por trás de Argemiro. Os colegas se calaram para testemunhar o beijo de surpresa que ele recebeu no rosto. E o contato úmido veio como um choque.- Ôpa, Cilene! Tudo bom? O que foi isso, menina?
- Oxe, a gente não pode mais cumprimentar os amigos, Gegê? Deu vontade... Olha, amanhã passa no salão pra a gente acertar aquele nosso assunto, viu?
O silêncio continuou enquanto ela se afastava em passos miúdos de salto-alto. Os competidores boquiabertos continuaram os lances e nem repararam quando Argemiro enxergou a vitória.
- Bati, pessoal! Lá e ló de carroça! E com essa eu me despeço, que amanhã é dia de branco.
- Tava com sorte, hein, Galho-de-manga? E que história é essa com Cilene?
Fingiu que estar mouco e caminhou rua abaixo de peito estufado. Mas ouviu bem a turma confabular. Olha o cara, por essa nem ele esperava. A galega chamou “pra ver um negócio” no salão. E desde quando esse varapau sabe tratar de negócio com mulher? Depois vai ter que explicar, ah se vai.
Estendeu um raro sorriso de campeão.
Ninguém dava muito crédito a Argemiro. Gegê Galho-de-manga. Desde adolescente, magro de contar as costelas, no alto de pernas descompassadas, braços finos quase sem sincronia. No futebol do campinho sem grama, o atacante gritava passa pra cá, Galho-de-manga, e a pelota acabava no pé do adversário. Então fica de goleiro, Gegê, e o logo inimigo comemorava o gol feito sem esforço. Acabou escalado como gandula, à procura das bolas perdidas no mato. Nas festinhas de garagem, todas as meninas que chamava para dançar estavam com dor de cabeça ou com uma dorzinha no pé. Mas por que elas iam pra festa mesmo doentes, meu Deus? Ficou adulto sem conhecer mulher que não cobrasse pela intimidade. Os irmãos se casaram e Argemiro ocupando o quarto de solteiro na casa da mãe viúva.
E como mamãe falava! Argemiro, por que tu não passou no vestibular de Odontologia? Eu te dei até nome de doutor, e tu com essa cara de preguiça. Curso técnico de contabilidade, isso é profissão que preste? Passou no concurso da prefeitura? Ajuda a pagar o feijão que come, mas o holerite é muito fraco. Devia ser feito Marcos Antônio, filho de dona Socorro. Policial da Civil, bom salário e ainda estudando Direito de noite pra ser delegado. Tu visse a casa que ele comprou depois que casou com Lurdinha? Três quartos e garagem. E trocou o Fusca por um Kadett e novinho.
Marcos Antônio, o Marcão, também fora criado no bairro, dividindo brincadeiras com Argemiro: bola de gude, futebol de botão, esconde-esconde. Sempre junto de Gegê, a quem nunca chamou de Galho-de-manga. Tá certo que toda vez ganhava na bola de gude, no botão, além de descobrir logo os esconderijos do amigo. Na escola, tirava as maiores notas. Virou rapaz de ombros largos, topete bem escovado, conversa manhosa no ouvido das meninas. Namorou um bocado até noivar com Maria de Lourdes.
Ah, Lurdinha. Rosto de atriz de novela das oito, cabelos pretos em trança, corpo miúdo em vestidos recatados, cheia de bons-dias e boas-noites, por favor e obrigada. Argemiro a faria feliz se tivesse a chance. Seria a princesa do país de Gegê, a andar com ele de braços dados. Bancaria todos os quereres dela, apenas em troca do sorriso meigo e das noites vividas na mesma cama. Certa vez, lhe deu rosas. Lurdinha mostrou o anel de compromisso ao dizer que não poderia aceitar.
- Gosto de você como irmão, Argemiro. E é tão bonita a sua amizade com Marcos Antônio. Isso fica entre nós, promete?
Gegê cruzou com Marcão no caminho do salão de Cilene. Trocaram aquele abraço, mas a pressa não permitiu mais que duas ou três frases, esse nosso time não tem jeito, passa lá em casa pra um café, dá um abraço em Lurdinha. A cabeleireira o esperava com um monte de documentos e boletos na tarde em que não atenderia à clientela. Daria muito trabalho encontrar uma maneira de dispensar as multas pelos atrasos no pagamento dos impostos municipais cobrados à dona estabelecimento. Como servidor da Coletoria da prefeitura, Argemiro conhecia os caminhos para o descaminho fiscal. Prestar esse tipo de favor a uma amiga querida era ilegal ou imoral? Os dois. Mas quem resistiria à loirice de Cilene, ainda mais quando pedia ajuda choramingando e fazendo biquinho?
A cabeleireira deu outro beijo no rosto de Gegê quando ele saiu à rua depois de horas enfurnado no salão. Os companheiros de dominó espreitavam na esquina e comprovaram a veracidade do contive de Cilene. Logo rodearam o amigo, o arrastaram para a mesa de alvenaria da praça. Conta aí, Galho-de-manga. Tu és foda mesmo! A mulher é primeira de luxo, né não? Como foi que tu chegou junto? Entrou na tua assim, de graça? Conta, conta! Ele apenas pendurou na cara mais um sorriso campeão antes de ir embora.
A turma do dominó fez o relato à galera da sinuca. Tá comendo a galega, a gente tem certeza. Logo a mais gostosa da rua. E ela não é metida a besta, faz cu-doce pra todo mundo? Faz pros outros, mas Galho-de-manga emplacou. E deve estar ganhando corte e lavagem de cabelo de graça, o infeliz.
Os maridos comentaram com as esposas. Aquela tua cabeleireira tá de namorado novo, Gegê Galho-de-manga. Nossa, aquela trepeça do filho de dona Corina? Esse mesmo, tu acredita? Então deve ter alguma coisa muito boa, dinheiro que não é. Pois é um amor roxo, ela nem disfarça.
As esposas conversaram na sacristia antes da missa de domingo. Mas menina, Argemiro e Cilene, tem certeza? E ela vive falando que é noiva de um sujeito rico que mora em São Paulo. Dizem que toda segunda Gegê fica lá no salão horas e horas. Que tanto os dois fazem? O homem tem fôlego, pois Cilene é daquelas fogosas.
Os homens escutaram os cochichos das mulheres. É fogosa, sim, todo mundo sabe. E Gegê tá dando conta. De alesado só tem a cara. Também, não vê a envergadura do cabra? Quase dois metros! Se for proporcional... Alguém já conferiu, assim, de relance, no banheiro do bar? Isso é coisa que não se repara, meu irmão! Mas só pode ser isso. E ele ouviu a saudação do motorista do ônibus quando
descia na parada, chegando do expediente:
- Grande, Argemiro! Gegê Mangará-de-banana!
Por onde passava era apontado. Ficavam espiando e usavam a mão para esconder o risinho. As moças, então, pareciam estar de olhos mais abertos para vê-lo. Nunca havia recebido tantos bons-dias e boas-tardes. Agora caminhava de nariz empinado. Quase não percebeu Lurdinha acenando do outro lado da rua quando saía de casa pro trabalho naquela manhã de sexta-feira.
- Gegê, nunca mais você apareceu lá em casa. Então vai amanhã, depois das oito. Combinado?
Na noite do sábado, foi estranho encontrar Lurdinha maquiada, de cabelos soltos, perfumada, a esperar no terraço. Ela sorriu e fez um gesto para ele entrar ligeiro. Mais esquisito ainda foi não encontrar o Marcão.
- Tá no plantão da delegacia, sabe como é policial.
Acomodado no sofá, copo de cerveja na mão, percebeu como estava suave a voz da amiga. Falava que queria muito bem a ele, um cara conhecido na vizinhança, agora tão diferente do menino tímido, que nunca dançava nas festas, tinha ouvido falar tantas coisas dele nos últimos dias, coisas que ela nem desconfiava. E dizia tudo aquilo se remexendo de leve no sofá para diminuir o espaço entre os dois. Quando a perna lisinha, exposta pelo vestido curto, finalmente roçou a calça de brim, Lurdinha sussurrava.
- Você já quis me beijar, né, Gegê? Me beija agora...
- Que é isso, Lurdinha! Tá me estranhado! Um dia você mesmo lembrou a minha amizade com Marcão.
- É que teu amigo não sabe ser esposo. Só vive na delegacia, ou então agarrado com os livros de Direito. Hora pra mim não tem. Tá sempre cansado e dorme. Passo o dia e a noite sozinha...
Lágrimas começaram a borrar a maquiagem. Ele ficou na dúvida entre rir ou chorar. Os braços finos entraram em perfeita sincronia ao envolverem o corpo pequeno. No quarto, a princesa se revelou governante cheia de caprichos, disposta a não deixar o súdito esmorecer. Deles era todo um país de desejos, território invadido sem trégua até o sol estufar de luz a cortina cinzenta.
Lurdinha dormia nua, enroscada ao peito de Argemiro. O espelho da cômoda comprovava que não era sonho. Estava mesmo na cama do velho amigo abraçado com a mulher dele. Para ser o Marcão, só faltava o distintivo e o Kadett. Aí seria lá e lô. De carroça. Será que teria outra vitória daquelas na vida? Escutou a porta do quarto ranger devagar.
- Cadê você, amor? Chequei mais cedo da delegacia.... Argemiro! Lurdinha! Que palhaçada é essa?
Viu a mão de Marco Antônio tremer ao puxar o trinta e oito da cintura. Poderia ter implorado perdão, poderia ter inventado que bebera demais, que não era bem aquilo que parecia ser, pedido que tivesse calma, pensasse bem antes de fazer alguma besteira. Mas lembrou de cada gol sofrido no futebol
de botão, de cada bola de gude perdida. Desta vez não se importou de ter o esconderijo descoberto.
- Foi mal aí, Marcão. Mas vamos combinar que tu vacilou. Que culpa eu tenho se tua mulher tava carente?
No velório de Gegê, Cilene não parava de suspirar. Lurdinha também havia chorando muito junto ao caixão antes de ser levada à delegacia para prestar depoimento sobre o marido foragido. Usando paletós escuros, os colegas de dominó se juntaram num canto do salão. Mas esse Galho-de-manga não valia nada mesmo, caladinho e passando o rodo, sempre desconfiei, se fazia de besta, mas urso guloso demais acaba na mira de corno brabo, pode ser impressão minha, mas repara bem o defunto: não parece que morreu sorrindo?