segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Os calendários na casa de Lolô

                                                                                  Por Roberto Beltrão


- Acuda, Lolô, que uma tragédia aconteceu na tua casa.

Quase sempre ele ouvia, mas não entendia na mesma hora. Escutou o grito e continuou calado, de cabeça baixa, sentado no meio-fio, rabiscando várias vezes o nome no pouco de areia que cobria o asfalto. Lourival. Gostava desse nome. Divertia-se escrevendo cada letra. Era a única maneira que conhecia de juntar as letras, de outra maneira não havia aprendido. Foi assim que a mãe sempre o chamou. Corre aqui, Lourival; para de bulir com o cachorro, Lourival; vem jantar, Lourival. Mesmo quando era um carão, ele sorria. Só ela falava esse nome de gente. O pessoal chamava Lolô. Vem jogar bola, Lolô; corre, Lolô, que lá vem a polícia; Lolô, filho da puta.

Ele sabia o que era um lolô, não juntava as letras, mas sabia. É o caramujo, aquele bicho mole, com uma casca, que anda devagar, escorregando por cima das pedras cheias de lodo.  Os meninos com quem jogava bola riam dele, diziam que era um lolô de cacimba. Se a vida do lolô de rio já era uma bosta, esperando que um dia uma enchente o carregasse, avalie a vida do lolô de cacimba que fica para sempre na mesma água rasa, sem nunca ver o resto do mundo. Mas de que vale sair da cacimba se nela está tudo o que a gente precisa? Quando a mãe o botou na escola, ele viu logo que era coisa besta. Fazer conta pra quê?  Não servia de nada fazer aqueles desenhos miúdos no papel. A professora o ensinou a desenhar o nome, e bastava. Bom era correr com os moleques, andar descalço, tomar banho de chuva, subir em árvore, futebol, comer manga, jambo, goiaba, empinar papagaio, dar peteleco em bola de gude. A mãe se aperreava. Vai estudar, Lourival.  Que estudar o que; me deixa, mãe. Ela chorava tomando de um gole no copo de cerveja. Esse menino me dá muito desgosto. Ele esfregava os olhos cheios de lágrima, não queria fazê-la ficar triste. Gostar da escola, não. Mas o resto, as outras coisas boas, passou a fazer por ela. Não dizia palavrão em casa, tomava banho antes do almoço, penteava o cabelo, bom dia, boa noite, por favor, sim, senhora, não, senhora. Assim, ela voltava a sorrir. Quase sempre. Mordia os lábios e aproximava uma sobrancelha da outra quando escutava Lourival perguntar quem é meu pai. Não respondia. Nunca.

Na parede encardida da sala na casa de dois quartos, ela pendurou um calendário. Quando acabava o ano, o calendário velho não era retirado; só se colocava o novo na frente. Primeiro foram os gatinhos de olhos claros, depois a rosa vermelha, o menino loirinho de roupa xadrez, os filhotes de cachorro, a vovó abraçando os netos de bochechas rosadas, os gatinhos de novo.  Quem dava os calendários era Barradas, dono do mercadinho. Dava também uma feira, feijão, arroz, farinha, charque, fubá, café, um bocado de coisa que o menino que ia pegar todo mês. Apanhava tudo na porta dos fundos do mercadinho. Era esmola? Houve um tempo em que às vezes Barradas ia à casa dos dois à noite. Ele já sabia. Filho, vá dormir agora.  Gostava de Barradas, era puto com os filhos dele. Chamavam-no de otário quando caía da bicicleta, de filho da puta quando chutava a bola para longe sem querer.

Na parede da sala, via o bolo de calendários aumentar, um na frente do outro, quase da grossura da lista telefônica. Nesse tempo, Barradas deixou de vir. Ela sorria só de vez em quando e ficava em frente ao espelho, puxando com a ponta dos dedos as rugas que apareceram no rosto, o esmalte das unhas descascado, um cigarro atrás do outro, os cabelos pintados de loiro com as raízes brancas aparecendo. E Lourival pelo meio da rua, nem precisava muito dizer sim, senhora, não, senhora. Às vezes ela tossia sem parar, ficava sem comer, vomitava sangue. Coisa de gente velha, quarenta e seis anos. Ele passava mal só de ver, ficava doente por dentro. A bichinha tem c-a, ouviu uma vizinha falar no ouvido da outra; lembrou-se da professora, c-a-ca, c-e-ce, c-i-ci; ele ria antes de completar o resto, que besteira. Era por isso que nem ia mais ao colégio, deixou a farda se rasgar. Chato é que não achava muito o que fazer, os outros meninos cresceram, só vivam na aula, não havia nem que o chamasse de filho da puta. Em dia de sol, ficava sentado no meio-fio, fazendo e refazendo o nome na areia por cima do asfalto para não esquecer como se escrevia.

- Lôlo,  vai pra casa que aconteceu uma desgraça, eu não já falei.

- Já vou, já vou, Seu Barradas.

Na porta da casa, bem uma dez pessoas. As vizinhas todo dia conversavam berrando e dando gargalhada; agora falavam baixo e, nas mãos, enrolaram terços. Chega aqui, Lolô; Não, mulher, o nome dele é Lourival; a mamãe foi dormir com papai-do-céu; coitada, tava era magra; ela nem comia mais, não queria ir ao médico, foi desgosto; foi doença feia, isso sim; só contava com o menino pra cuidar dela; mamãe sempre vai olhar pra você, de onde estiver; e quem vai criar ele agora?

Olhou bem para ela. Pálida, de olhos abertos, de camisola, deitada na cama, o cigarro ainda entre os dedos. Foi até a parede e começou a tirar do prego os calendários, um de cada vez, pra ver se o tempo voltava. Não voltou.

- A gente vai cobrir ela agora, Lourival. Seu Barradas já disse que faz o enterro. Tá certo que homem não chora, mas pode chorar porque é mamãe.

- Essa não é mais minha mãe; se fosse não ia fazer isso de morrer.

Saiu abaixando a cabeça para se livrar das mãos que queriam acariciá-la. Voltou para rua, sentou-se e no meio-fio e, com um palito de picolé, começou a escrever no chão. Lourival.

***
Esse conto foi publicado originalmente no livro "Contos de Oficina - número 7", coletânea de trabalhos dos alunos da Oficina de Criação Literária de Raimundo Carrero.

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